Qual é o impacto dos ajustes de preço abaixo do esperado pela CMED sobre as ações?

A Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (CMED) anunciou os fatores X e Y para o reajuste anual de preços de medicamentos de 2026, com o primeiro em 2,684%, ante 2,459% em 2025, e o segundo em 0%, já que o saldo acumulado de anos anteriores compensou totalmente as pressões de 2025.

Embora uma CMED abaixo da inflação seja um vento contrário para as margens, a XP Investimentos avalia que há fatores mitigadores, como o ajuste dos descontos entre o preço de referência da indústria e os preços finais ao consumidor, a alavancagem operacional com as vendas de GLP-1 e o lançamento de genéricos desses produtos.

O Itaú BBA, por sua vez, destaca que o mercado está menos preocupado com os impactos de um reajuste abaixo da inflação do que no ano passado, pois as redes de drogarias conseguiram repassar aumentos próximos à inflação por meio da redução do desconto médio entre os preços efetivos praticados e os tetos regulados pela CMED.

Segundo as estimativas do BBA, o aumento efetivo de preços ficou cerca de 50 pontos-base acima do reajuste da CMED, ou aproximadamente 100 a 150 pontos-base ao se considerar também a redução adicional imposta pela agência para refletir cortes anteriores de carga tributária, sobretudo de PIS/Cofins. Isso ajudou a sustentar a alavancagem operacional.

Ainda assim, a correlação entre o reajuste da CMED e as vendas mesmas lojas maduras (SSS) segue relevante, o que indica que um número mais fraco tende a gerar revisões de lucro no curto prazo para as redes de farmácias.

Já o Goldman Sachs destaca que a projeção atual é mais fraca do que as estimativas anteriores devido à magnitude do fator X, que se destacou como a maior leitura desde 2021, enquanto esperava um número mais próximo de zero com base nos valores históricos de 2022 a 2024.

Dentro do universo coberto pelo Goldman Sachs, Hypera (HYPE3, classificação neutra) e Blau (BLAU3, recomendação Compra) são apontadas como as empresas com exposição direta ao tema.

Embora, à primeira vista, o cenário possa ser interpretado como levemente negativo para a Hypera, o banco destaca que: (A) cerca de 60% do portfólio da companhia não está sujeito a esses reajustes regulatórios; e (B) dos aproximadamente 40% restantes, cerca de metade está na categoria de genéricos, na qual a empresa poderia compensar reajustes menores por meio de uma mudança em sua estratégia de descontos, em meio à elevada concorrência nesse segmento. Nesse contexto, o Goldman Sachs avalia que o impacto potencial sobre a receita de 2026 da empresa pode ser relativamente limitado neste momento, apesar da mensagem mais fraca para o setor.

No caso da Blau, o Goldman Sachs observa que a grande maioria de seu portfólio opera abaixo dos preços-teto da CMED. Assim, as expectativas mais baixas para o reajuste regulatório devem ter impacto restrito sobre a dinâmica de preços da companhia.

O Morgan Stanley, por sua vez, explica que o impacto do fator X pode ser parcialmente mitigado pelo fator Z, que ajusta o fator de produtividade efetivo conforme o grau de comoditização de cada classe terapêutica (ATC). Nesse arcabouço, classes altamente comoditizadas podem enfrentar um fator de produtividade efetivo de zero, enquanto aquelas com nível intermediário ficam sujeitas a um fator equivalente a 50% do X.

No entanto, com base nos dados mais recentes disponíveis (2024), 58% das vendas do setor estão ligadas a ATCs classificados pela CMED como menos comoditizados, o que significa que a maior parte do mercado permanece totalmente exposta ao efeito negativo mais elevado do fator de produtividade sobre os preços.

O Morgan destaca que, embora os reajustes da CMED se apliquem apenas ao preço máximo regulado, eles funcionam como uma âncora para a formação de preços do setor. Ainda assim, a diferença superior a dois pontos percentuais entre o reajuste implícito pela CMED e o comportamento efetivo dos preços observado recentemente evidencia a redução dos descontos e o ainda forte efeito do mix de GLP-1, que tende a persistir ao longo do ano e pode continuar mitigando parcialmente as pressões regulatórias.

Preferência por drogarias

O Itaú BBA segue confiante com o setor e aponta Pague Menos (PGMN3) e Panvel (PNVL3) como as principais escolhas. O banco espera que o momentum permaneça forte, com um quarto trimestre robusto e potencial de surpresa positiva na receita, especialmente após vendas mais fortes de medicamentos da classe GLP-1 em novembro e dezembro.

A exposição às ações de PGMN3 e PNVL3 poderia ser ampliada, segundo o banco, diante dos múltiplos atrativos, de cerca de 11 vezes o lucro estimado para 2026 no caso da Pague Menos e 12 vezes no da Panvel, para companhias que vêm crescendo a linha de receita em torno de 50% ao ano. A RD Saúde (RADL3) também segue bem posicionada, na avaliação do Itaú BBA, ao continuar capturando os benefícios do avanço dos medicamentos GLP-1.

RD Saúde (RADL3)

Para varejistas farmacêuticos como a RD Saúde (RADL3), o Morgan Stanley afirma que essa dinâmica limita os ganhos potenciais durante o período de “pré-alta”, o intervalo que antecede o reajuste anual, quando as redes normalmente reforçam estoques a preços mais baixos em março e passam a vender a preços reajustados a partir de abril. Além disso, como muitos custos e despesas operacionais tendem a acompanhar a inflação, um aumento autorizado menor pode restringir a expansão de margens ao longo do ano.

Já o Goldman Sachs avalia que o impacto negativo para a RD deve ser limitado por, entre outros fatores, a capacidade da companhia de usar sua escala para renegociar níveis de desconto com fornecedores e reduzir os descontos ao consumidor final (como observado em 2025), os ventos favoráveis contínuos vindos dos produtos GLP-1 (ver tópico nº 2) e uma base de comparação relativamente pouco exigente para a margem bruta, dado o menor espaço para arbitragem por meio de compras antecipadas em 2025.

O banco também destaca que o impulso positivo dos medicamentos GLP-1 deve mais do que compensar o reajuste regulatório relativamente menor em 2026. Com base no tamanho potencial desse mercado e na participação da RADL nele, a casa estima que pode haver um ganho adicional de +2% a +4% em relação à projeção de vendas para 2026.

Por fim, o banco espera impacto anual limitado na margem bruta no segundo trimestre de 2026, já que a oportunidade de comprar volumes maiores de estoques dos fornecedores no primeiro trimestre (antes do reajuste regulatório) já havia sido bastante restrita em 2025, criando uma base de comparação semelhante.

O Goldman Sachs reiterou recomendação de compra e preço-alvo de R$ 26.

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