Os últimos dias elevaram a Venezuela ao centro das atenções dos mercados latino‑americanos, com potenciais efeitos que vão muito além das fronteiras do país. A inesperada captura do presidente Nicolás Maduro por forças dos Estados Unidos, e a incerteza sobre o desfecho político, acentuaram riscos e oportunidades em toda a região, em especial para companhias com exposição direta ou indireta ao ambiente econômico venezuelano e às mudanças geopolíticas em curso.
Segundo o Bradesco BBI, a economia venezuelana permanece altamente incerta, com possíveis caminhos que variam de uma transição sob forte influência dos EUA a um prolongado conflito de poder interno.
Por que as ações de petroleiras caem na B3 apesar da alta do petróleo com Venezuela?
Mercado olha principalmente para os efeitos mais a longo prazo da deposição de Maduro na Venezuela
Trump preteriu María Corina na Venezuela por causa do Nobel da Paz, diz jornal
Segundo o Washington Post, decisão de María Corina Machado de aceitar o prêmio irritou Trump e pesou contra seu protagonismo no pós-Maduro
Em todos os cenários, ainda que a produção de petróleo da Venezuela, de 1 milhão de barris por dia, seja hoje uma fração do seu pico histórico, o mercado vê impactos principalmente regionais no curto prazo, sem efeito imediato relevante nos preços globais de petróleo.
No contexto mais amplo da América Latina, essas movimentações geopolíticas intensificam vulnerabilidades e oportunidades de mercado, com potenciais repercussões sobre fluxos comerciais, migração, integração logística e consumo. Para investidores, isso se traduz em um cenário de volatilidade, mas também de identificação de ativos que podem se beneficiar de um processo de reconstrução, normalização do comércio e reintermediação financeira caso a estabilidade venha a ser restabelecida.
Mesmo tamanho que tinha há 45 anos
A Venezuela está fora do radar de ações desde a eleição de Hugo Chávez em 1998, o início dos controles de capital em 2003 e sua exclusão do índice MSCI de mercados emergentes em 2006. A economia do país tem hoje o mesmo tamanho em dólares que tinha há 45 anos, enquanto a América Latina cresceu oito vezes nesse período.
Embora atualmente a Venezuela seja o 21º maior produtor de petróleo do mundo, sua produção de 1 milhão de barris por dia (mbpd) é uma fração do pico de 3,7 mbpd em 1970. Nenhuma ação venezuelana é negociada em bolsas estrangeiras, embora a cesta da Venezuela destaque dez ações listadas no exterior com exposição ao país.
10 ações latinas mais impactadas
O BBI compilou uma cesta de 10 ações listadas no exterior com maior sensibilidade à crise venezuelana, abrangendo desde papéis ligados a expectativas de normalização comercial até empresas expostas a riscos de longo prazo na região. Entre elas estão Rand Mining e Gran Tierra Energy, pequenas companhias canadenses que enfrentam grandes processos legais contra o governo venezuelano por expropriações, podendo se beneficiar em um eventual cenário de indenizações ou reestruturação institucional.
No setor de energia, aparecem Tullow Oil, da Índia, e Maurel & Prom, da França, com operações ou histórico ligados à Venezuela e a mercados emergentes de petróleo, sensíveis às perspectivas de produção e investimento no país.
Entre os grandes grupos espanhóis, Telefônica e BBVA têm negócios na América Latina que podem ser impactados por flutuações macroeconômicas e riscos de crédito decorrentes da instabilidade regional.
Já Coca‑Cola FEMSA, a maior engarrafadora de produtos Coca‑Cola na América Latina, pode ver seu desempenho afetado por mudanças nos padrões de consumo e nas condições econômicas emergentes. A holding financeira peruana Credicorp também aparece na lista, com exposição a bancos e seguros na região, sujeita a efeitos indiretos via fluxos de capital e risco soberano.
Por fim, empresas colombianas como Cemargos e Grupo Nutresa, atuantes nos setores de alimentos e logística, podem se beneficiar de uma eventual recuperação do comércio intra‑regional, especialmente se as relações com a Venezuela forem normalizadas.
O BBI observa que essa cesta de ações vinha acompanhando o desempenho do índice MSCI da América Latina, refletindo a persistente incerteza quanto ao momento, à direção e ao desfecho de qualquer intervenção ou processo de transição política venezuelano. A ligação dessas companhias com o caso venezuelano é, em muitos casos, indireta, mas relevante na medida em que mudanças na dinâmica regional afetam expectativas de crescimento, fluxos de investimento e avaliação de risco pelos mercados.
Principais países impactados
Para analistas, o impacto mais imediato se concentra em países geograficamente e economicamente próximos à Venezuela, como a Colômbia, onde empresas de alimentos, utilities e bancos podem capturar oportunidades ligadas a uma eventual reconexão comercial e redução das pressões migratórias.
O valor anual das exportações colombianas para a Venezuela é de cerca de US$ 1 bilhão, representando 6% do total de exportações. Empresas colombianas estão bem posicionadas para participar da reconstrução, normalização do comércio e reintermediação financeira. Mais amplamente, a região pode se beneficiar de um ambiente geopolítico mais favorável, menor pressão migratória e reorganização dos fluxos de investimento.
Países como o México também aparecem no radar por conta de implicações geopolíticas mais amplas, embora sua ligação de mercado com a Venezuela seja menos direta.
Na visão do BBI, em um cenário onde a transição venezuelana resulte em uma autoridade interina reconhecida que promova estabilidade e caminhos críveis para eleições, as empresas com exposição logística, comercial e de serviços na região serão as mais bem posicionadas para se beneficiar, enquanto ativos de dívida ou títulos de alta volatilidade permanecem apenas para investidores com apetite por risco elevado.
O UBS vê implicações imediatas limitadas para os ativos locais nos principais mercados da região (Brasil, México, Chile, Colômbia, Peru e Argentina).
“No entanto, os acontecimentos do fim de semana podem levar os investidores a reavaliar certos cenários de risco extremo que haviam saído de foco e a examinar mais de perto as vulnerabilidades específicas de cada país”, avalia a equipe do banco suíço.
Os economistas destacaram México e Colômbia como os dois mercados onde essa reavaliação tem maior probabilidade de se concretizar, e onde acredita que a volatilidade pode aumentar diante de avaliações exigentes das moedas locais, posicionamentos pesados e riscos específicos.
Para o restante da região, as implicações parecem mais limitadas por enquanto. “O Brasil é uma grande economia, com a China como seu principal parceiro comercial e cuja relação com os EUA melhorou nos últimos meses (os EUA removeram tarifas sobre carne bovina e café brasileiros em novembro e, em dezembro, suspenderam sanções sob a Lei Magnitsky Global)”, avalia o banco.
Para Chile e Peru, avalia, salvo uma mudança material nos fluxos migratórios venezuelanos desses países, as implicações macroeconômicas e de mercado parecem limitadas por enquanto.
No entanto, os riscos podem aumentar se os acontecimentos do fim de semana desencadearem preocupações geopolíticas mais amplas que pesem sobre as expectativas de crescimento global e, por sua vez, sobre os preços das commodities.
The post Quais os impactos da instabilidade na Venezuela para os mercados da América Latina? appeared first on InfoMoney.
