PIMCO liga alerta para emprego nos EUA e aposta forte na renda fixa global

Luis Oliveira, vp da PIMCO.

A inflação deixou de ser o maior motivo de preocupação nos Estados Unidos e deu lugar a um risco considerado mais sensível pela PIMCO: o mercado de trabalho.

Em meio a tensões comerciais persistentes e ao impacto das tarifas impostas nos últimos anos, a gestora avalia que os efeitos econômicos tendem a aparecer com mais força no emprego do que nos preços. A leitura foi apresentada por Luis Oliveira, vice-presidente para América Latina e Caribe da PIMCO. 

Segundo Oliveira, grandes companhias americanas têm conseguido absorver parte relevante do impacto das tarifas, comprimindo margens para preservar participação de mercado. Já pequenas e médias empresas, com menor poder de barganha, acabam recorrendo a cortes de custos.

“Nossa preocupação hoje é muito mais com emprego do que com inflação”, afirmou o executivo, ao destacar que esse ajuste tende a se refletir diretamente no mercado de trabalho.

Apesar desse cenário, a PIMCO vê o atual patamar de juros como uma oportunidade clara para investidores em renda fixa. Oliveira lembrou que os yields hoje são, em média, o dobro do observado no período pré-pandemia.

“Existe a vantagem do carrego. Se você compra uma Treasury de dez anos a 4%, ao longo do tempo essa taxa será entregue, mesmo com volatilidade no curto prazo”

— Luis Oliveira, vice-presidente para América Latina e Caribe.

A avaliação da gestora é que o retorno esperado da renda fixa nos próximos anos tende a ser estruturalmente mais elevado do que no passado recente, reforçando o papel do ativo como fonte de previsibilidade e geração de renda em carteiras globais.

O executivo participou do podcast Outliers InfoMoney, apresentado por Clara Sodré e Fabiano Cintra.

Portfólio clássico em xeque e busca por diversificação global

Diante desse novo ambiente de juros e ciclos econômicos dessintonizados, a PIMCO passou a questionar um dos modelos mais tradicionais de alocação de recursos. “A brincadeira que fazemos hoje é que o americano deveria repensar o portfólio 60/40”, afirmou Oliveira. Para ele, com yields elevados, faz mais sentido considerar uma composição mais conservadora, próxima de 40% em renda variável e 60% em renda fixa.

Além dos Estados Unidos, a gestora identifica oportunidades relevantes em outros mercados desenvolvidos. Um dos destaques citados foi a Austrália. “Após o hedge cambial, o título australiano de dez anos entrega de 0,5 a 0,6 ponto percentual a mais que a Treasury americana”, explicou. O país, segundo Oliveira, combina inflação sob controle, ciclo econômico mais avançado e uma relação dívida/PIB significativamente mais saudável.

Enquanto os Estados Unidos operam com uma dívida superior a 120% do PIB, a Austrália mantém esse indicador em torno de 50%. Esse diferencial fiscal, aliado ao estágio do ciclo monetário, torna o mercado australiano atrativo dentro da estratégia global da casa.

A PIMCO também mantém exposições seletivas em mercados emergentes e aposta em estratégias de valor relativo, como inclinação de curva no Japão, aproveitando a divergência entre políticas monetárias ao redor do mundo.

Crédito estruturado ganha espaço e high yield perde apelo

No universo de crédito, a preferência da PIMCO é clara e baseada em qualidade, liquidez e estrutura. “Hoje, gostamos mais de crédito de alta qualidade e, dentro dele, de crédito estruturado”, afirmou Oliveira. A gestora tem sido especialmente cautelosa com o segmento de high yield, onde os prêmios de risco estão historicamente comprimidos.

Segundo o executivo, os spreads do high yield americano estão entre os menos atrativos da última década. “Em praticamente todo o período dos últimos dez anos, os prêmios de risco foram mais interessantes do que os atuais”, afirmou.

Para a PIMCO, olhar apenas o yield nominal pode ser enganoso. “Nós não olhamos o yield total, olhamos o prêmio ajustado ao risco”, reforçou.

Em contraste, o mercado de agency mortgage-backed securities (MBS) aparece como um dos principais focos da gestora. Trata-se de títulos lastreados em hipotecas e garantidos por agências do governo americano, como Fannie Mae e Freddie Mac.

Oliveira explicou que, apesar da associação imediata com a crise de 2008, esse segmento possui características bastante distintas hoje, com alto nível de liquidez e risco de crédito indireto do governo dos EUA.

Esse mercado, segundo ele, é o segundo mais líquido do mundo, atrás apenas das Treasuries. Atualmente, os agency MBS pagam cerca de 112 pontos-base acima dos títulos do Tesouro americano, o que representa aproximadamente 40 pontos a mais do que o crédito investment grade tradicional. “A gente prefere estar nesse setor”, afirmou.

Duration, liquidez e gestão ativa em um mundo volátil

Do ponto de vista de construção de portfólio, Oliveira destacou que a PIMCO trabalha com múltiplos fatores de risco dentro da renda fixa, como duration, crédito e moedas.

No caso da duration, a preferência é por uma exposição intermediária, em torno de quatro a cinco anos. A normalização da curva de juros nos Estados Unidos, após um período prolongado de inversão, voltou a remunerar melhor os vencimentos mais longos.

Além disso, a renda fixa de alta qualidade em mercados desenvolvidos tende a apresentar correlação negativa com ativos de risco em momentos de estresse, funcionando como proteção para as carteiras — um comportamento diferente do observado no Brasil.

“Quando essa correlação não funciona? Normalmente, quando você tem um ambiente de inflação fora de controle, o que não é o caso agora”, explicou.

A liquidez também é tratada como um ativo estratégico. Em cenários de abertura abrupta de spreads, como ocorreu em episódios recentes de estresse no mercado, a capacidade de alocar capital rapidamente em preços descontados faz diferença relevante na geração de retorno ao longo do ciclo.

Com juros globais ainda elevados, a PIMCO avalia que é possível montar portfólios com baixo risco de crédito e yields atrativos, inclusive no segmento investment grade, com retornos entre 6% e 6,5% em dólares. Para a gestora, esse ambiente devolveu à renda fixa um papel central nas carteiras globais.

“O cenário é de maior volatilidade, e isso exige portfólios balanceados, diversificados e com gestão ativa”, concluiu Oliveira. “Estamos bastante animados, principalmente com renda fixa de alta qualidade.”

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