Nas primeiras horas do seu segundo mandato, o presidente Donald Trump tentou apagar todas as marcas do ataque ao Capitólio ao conceder anistia a quase 1.600 pessoas envolvidas na revolta, que foi incitada pelas suas mentiras sobre uma eleição roubada.
Eles responderam com um grito coletivo de agradecimento. E por que não?
A proclamação de perdão os salvou, abrindo as portas das prisões e encerrando todos os processos criminais relacionados ao ataque ao Capitólio. Além disso, deu um carimbo presidencial de aprovação à visão distorcida do 6 de janeiro de 2021: que quem agrediu a polícia e vandalizou o prédio histórico naquele dia eram as vítimas, e que quem passou os quatro anos seguintes usando o sistema de justiça para responsabilizá-los eram os vilões.
Mas, quase um ano depois da ampla proclamação de Trump dizendo que havia aberto caminho para “um processo de reconciliação nacional”, muitos beneficiários da clemência continuam presos em teorias da conspiração, irritados com a administração Trump por não validar a insistência deles de que o ataque ao Capitólio foi uma armadilha do “deep state” e atormentados por problemas antes e depois da revolta.
“Ser perdoado não resolve os problemas dessas famílias”, escreveu recentemente Cynthia Hughes, uma importante defensora dos réus do 6 de janeiro, nas redes sociais. “Muitos mal estão se segurando mental, emocional e financeiramente. Fingir o contrário é mentira.”
Nos cinco anos desde que o Capitólio foi invadido, nenhum fato novo apareceu para derrubar as conclusões básicas dos investigadores do Congresso e do Departamento de Justiça, que mostraram que muitos invasores agiram na crença errada — alimentada sem parar por Trump — de que ele havia sido roubado da vitória em 2020. E que, ao atacar o Capitólio, não só feriram cerca de 140 policiais, mas também atacaram um dos pilares da democracia americana: a transferência pacífica do poder presidencial.
Mesmo assim, Trump sempre afirmou que os invasores sofreram maus-tratos terríveis, até ilegais, durante os processos.
E se isso for verdade, alguns dos invasores perdoados agora perguntam: por que os perseguidores deles não foram presos? E se os invasores são mártires de uma causa justa, como o presidente e seus aliados dizem, por que não receberam reparação financeira?

Embora essa desilusão não seja geral, alguns dos chamados “J6ers” começaram a questionar por que, depois de quase um ano no poder, as agências de segurança de Trump ainda não apresentaram provas da teoria da conspiração que divulgaram para ajudá-lo a recuperar a presidência: que agentes do “deep state” teriam atraído os apoiadores de Trump para invadir o Capitólio, com o objetivo de sabotar o movimento MAGA e justificar represálias políticas.
O que os J6ers raramente parecem considerar é a possibilidade de que o governo Trump não tenha revelado nenhuma verdade escondida sobre o 6 de janeiro porque simplesmente não existe nenhuma, nem conspiração do “deep state” e, por isso, não há motivo legal para abrir novas investigações relacionadas à revolta.
Mesmo assim, essas dúvidas alimentaram novas teorias da conspiração, agora focadas não na administração Biden, mas nos que estão no poder atualmente, leais a Trump, como o diretor do FBI Kash Patel e a procuradora-geral Pam Bondi. Essas teorias ganharam força com a chegada do quinto aniversário do 6 de janeiro — uma data que muitos invasores veem como a última chance de punir os agentes governamentais sombrios que, segundo eles, os enganaram no que passaram a chamar de “fedsurrection” (federal + insurreição).
“Se os verdadeiros responsáveis pelo 6 de janeiro não forem punidos antes que o prazo prescricional acabe em 6 de janeiro de 2026, pode me tirar das eleições de meio de mandato”, escreveu no mês passado Shane Jenkins, que tem várias condenações por crimes graves relacionados ao 6 de janeiro, incluindo agressão a policiais. “Vou concorrer CONTRA o GOP [Partido Republicano].”
Ao alimentar uma constante dose de teorias da conspiração infundadas, não só para os J6ers, mas também para outros em sua base, Trump e seus aliados criaram o que alguns especialistas chamam de um exército zumbi de seguidores. E agora, ao não levar essas teorias até o fim, estão vendo esse exército começar a se voltar contra eles.
Outra teoria da conspiração ganha força

Tudo isso ficou claro no fim do ano, quando muitos invasores perdoados reagiram com raiva às diferentes versões apresentadas para um mistério que ainda não foi resolvido sobre o ataque ao Capitólio: quem colocou as bombas caseiras nas sedes dos partidos Republicano e Democrata na noite antes do dia 6 de janeiro?
A primeira resposta apareceu no começo de novembro, quando Steve Baker, um dos invasores, publicou um artigo no site de direita The Blaze, dizendo que tinha encontrado uma “correspondência forense” entre o suspeito encapuzado filmado rondando Capitol Hill naquela noite e uma ex-policial do Capitólio que havia enfrentado a multidão no 6 de janeiro e depois passou a trabalhar para a CIA. A história de Baker encaixava direitinho na narrativa da “fedsurrection”, ligando as bombas a um ex-agente da lei com conexões na principal agência de inteligência do país.
Mas a reportagem do The Blaze não teve repercussão. Autoridades federais, incluindo Dan Bongino, que na época era vice-diretor do FBI, descartaram a história como falsa, e os advogados da ex-policial disseram que, quando o suspeito supostamente plantava as bombas, a cliente deles estava em casa, brincando com os cachorros.
Algumas semanas depois, Bongino, Patel e Bondi apareceram juntos no Departamento de Justiça para anunciar uma nova pista no caso — uma que contrariava a de Baker. Segundo eles, agentes federais tinham acabado de prender Brian Cole Jr., um homem da Virgínia que depois disse ao FBI que tinha colocado as bombas porque queria “falar em nome” de quem acreditava que a eleição de 2020 tinha sido roubada.
Bongino, que comandou a investigação do FBI, aproveitou a coletiva para elogiar Trump, dizendo que a prisão não teria acontecido sem as cobranças do presidente “para ir atrás dos bandidos”.
Mas Bongino deixou de contar um detalhe importante. Ele nunca falou que, antes de entrar para o FBI, quando era podcaster de direita, ele acreditava na mesma versão que Baker divulgava: que o caso das bombas era um “trabalho interno” que o próprio FBI tinha escondido numa “massiva conspiração” para impedir que os republicanos questionassem a eleição de 2020.
Horas depois, ele tentou minimizar essa contradição quando foi pressionado na TV pelo apresentador Sean Hannity, da Fox News.
“Eu já fui pago no passado, Sean, pelas minhas opiniões, isso é claro, e um dia vou voltar a isso — mas não é para isso que sou pago agora”, disse Bongino, que anunciou sua saída do FBI duas semanas depois. “Agora sou pago para ser seu vice-diretor, e baseamos as investigações em fatos.”
Mas a prisão de Cole já tinha plantado outra teoria da conspiração na cabeça da comunidade do 6 de janeiro.

Vários invasores logo trataram o suspeito do FBI como um bode expiatório, dizendo que a prisão dele servia para desviar a atenção da verdade: que o verdadeiro culpado, a ex-policial apontada por Baker, ainda estava solto. Alguns “especialistas de sofá” até argumentaram que as pernas de Cole eram curtas demais para ele ser o suspeito encapuzado dos vídeos de vigilância.
Chegou a rolar até conversa sobre um encobrimento do governo. Um encobrimento novo, diferente daquele antigo que Bongino defendia.
Os invasores perdoados aproveitaram o fato de que a promotora responsável pelo caso das bombas, Jocelyn Ballantine, também cuidou de outro caso importante do 6 de janeiro: o de Enrique Tarrio e outros líderes do grupo de extrema direita Proud Boys, que foram condenados por conspiração sediciosa, mas receberam clemência e foram soltos por Trump.
Essa nova teoria da conspiração viralizou tanto que virou destaque dias depois, num evento de mídia com Trump na Casa Branca. O presidente foi questionado sobre Ballantine por um dos jornalistas mais novos da imprensa da Casa Branca, um correspondente da LindellTV, empresa criada por Mike Lindell, negacionista eleitoral e fundador da MyPillow.
Não tinha motivo para acreditar que Trump já conhecia Ballantine, que tem experiência em lidar com vários processos complexos do 6 de janeiro e por isso foi escolhida para cuidar do caso das bombas. Mas isso não impediu ele de lançar suspeitas sobre ela.
“Jocelyn está sendo investigada — todos eles têm que ser investigados”, disse Trump. “O que eles estão fazendo é tão ruim. Isso foi uma farsa completa dos democratas.”
Mesmo sem prometer nada, a resposta dele deu força à ideia conspiratória da pergunta. E ainda deu aos invasores perdoados mais um motivo para se voltarem contra os funcionários de Trump que antes acreditavam que iriam revelar a verdade sobre o caso.
Reparação pela revolta
Para muitos réus do 6 de janeiro, a clemência não foi suficiente. Desde que Trump anunciou o perdão, começaram a surgir pedidos por mais: que os agentes do “deep state” fossem responsabilizados, que verdades escondidas fossem reveladas e que reparações — algum tipo de indenização financeira — fossem pagas.
Quase dois meses depois do decreto de Trump, advogados que representam os envolvidos no 6 de janeiro já planejavam processar o Departamento de Justiça. A ideia era argumentar que os casos relacionados ao ataque ao Capitólio eram perseguição maldosa e que muitos invasores foram gravemente prejudicados pelo próprio governo.
Dois advogados estavam à frente dessa iniciativa: Mark McCloskey, conhecido por ter mostrado um rifle semiautomático em 2020 enquanto manifestantes do Black Lives Matter passavam pela sua casa em St. Louis, e Peter Ticktin, amigo de Trump desde a adolescência na Academia Militar de Nova York.
Eles tinham motivos para ter esperança. Questionado na primavera sobre uma possível compensação para os invasores em entrevista ao canal de notícias de direita Newsmax, Trump deu uma resposta típica e vaga:
“Muita gente que está no governo agora fala sobre isso porque muita gente no governo realmente gosta desse grupo de pessoas”, disse ele.
Mas existe uma grande diferença entre falar e agir — especialmente em Washington. E, sabendo das dificuldades para ganhar processos contra o governo, McCloskey começou a apresentar a altos funcionários do Departamento de Justiça um plano mais ousado: criar um comitê para conceder indenizações aos invasores, parecido com o mestre especial que distribuiu dinheiro às vítimas dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001.
Um dos principais contatos de McCloskey era Ed Martin, que tem histórico de defender teorias da conspiração e arrecadar fundos para os envolvidos no 6 de janeiro. Martin, que comandou o escritório do procurador dos EUA em Washington até maio, agora lidera o grupo de trabalho do Departamento de Justiça que investiga supostas “armações” feitas por agentes da lei, com a missão de revisar as ações dos policiais que investigaram Trump.
Mas, quando o primeiro ano do segundo mandato de Trump estava chegando ao fim, a proposta de McCloskey ficou parada. Muitos invasores perdoados perceberam que o próprio Trump havia pedido ao Departamento de Justiça que lhe pagasse até US$ 230 milhões em reivindicações semelhantes pelas investigações criminais contra ele.
No mês passado, numa espécie de sinal de que as negociações estavam travadas, McCloskey postou uma foto nas redes sociais dele mesmo empurrando um carrinho cheio de caixas para a sede do Departamento de Justiça. Na postagem, ele disse que as caixas continham centenas de formulários preenchidos por possíveis litigantes antes de entrarem com seus pedidos.
Em entrevista ao The New York Times, McCloskey disse que, apesar de ele e Martin terem tido várias “reuniões positivas”, Trump e sua equipe pareciam não ter “interesse” no momento em compensar financeiramente os invasores.
Ele explicou que a foto foi um alerta de que processos judiciais podem estar a caminho.
Um marco em vários aspectos

Cinco anos depois, o ataque ao Capitólio ainda marca a vida de muita gente envolvida. Seja para comemorar ou lamentar, alguns estão planejando voltar a Washington para o quinto aniversário e refazer o caminho que mudou suas vidas.
Mas essa data também é o prazo final para que sejam feitas acusações pelos crimes relacionados ao 6 de janeiro — principalmente aqueles que os conspiracionistas acreditam terem sido cometidos pelo governo naquele dia.
“O presidente Trump fez campanha dizendo que tinha federais na multidão causando confusão, mas até agora não vimos nenhuma ação contra eles”, disse Will Pope, um dos invasores. “No fim das contas, a gente quer ver alguma coisa acontecendo.”
Os pedidos de vingança de invasores como Pope, embora não sejam novidade, vêm sendo alimentados há tempos por Trump e alguns de seus principais aliados.
Mas a pressão de muitos J6ers dizendo que o tempo está acabando para acusar os instigadores federais, os promotores que trabalharam nos casos deles e até membros do comitê do Congresso que investigou o ataque ao Capitólio foi tão grande que altos funcionários do Departamento de Justiça tiveram que se pronunciar.
No domingo depois do Natal, Harmeet K. Dhillon, chefe da divisão de direitos civis do departamento, criticou os “influenciadores” que levantavam dúvidas sobre o prazo para denúncias, basicamente dizendo para não se preocuparem. O “DOJ Trump/Bondi”, prometeu, “está trabalhando para levar à justiça quem usou o 6 de janeiro de 2021 para seus próprios fins.”
Uma forma de fazer essa justiça pode ser um relatório que Martin está preparando sobre a resposta do governo ao 6 de janeiro. O trabalho está sendo coordenado em parte por alguém que participou do ataque ao Capitólio: Jared L. Wise, ex-agente do FBI acusado de incentivar a multidão a atacar os policiais naquele dia e que, depois de receber clemência, foi contratado por Martin como assessor do Departamento de Justiça.
Ainda não se sabe o que o relatório vai dizer, mas Wise já se reuniu com funcionários da Casa Branca e do gabinete do procurador-geral adjunto, segundo documentos internos do Departamento de Justiça. Alguns invasores até compartilharam suas opiniões com a equipe dele, conforme reportagem recente da Reuters, e sugeriram como montar acusações contra os próprios funcionários que tentaram responsabilizá-los.
Treniss Evans, condenado a 20 dias de prisão após se declarar culpado de invadir o Capitólio, enviou uma declaração ao Departamento de Justiça no ano passado detalhando como, na opinião dele, poderiam ser feitas acusações contra alguns agentes, promotores e até juízes que lidaram com casos do 6 de janeiro por terem escondido provas e manipulado testemunhas. Ele se ofereceu para depor caso novas acusações sejam feitas.
Não dá para saber se o Departamento de Justiça de Trump iria ou poderia seguir com essas acusações. Apesar de Martin ter a atenção do presidente, vários dos planos mais agressivos dele foram barrados pelos chefes do Departamento de Justiça, incluindo o procurador-geral adjunto Todd Blanche.
Muitos policiais que se feriram protegendo o Capitólio em 6 de janeiro ainda carregam as marcas daquele dia. E muitos agentes e promotores que trabalharam nos casos da revolta — alguns até foram demitidos por isso — estão revoltados com o fato de os réus terem se voltado contra eles, mas não se surpreendem por não terem conseguido as acusações que pediram.
“Isso me lembra um líder de seita que não cumpre o que promete aos seguidores”, disse Mike Romano, ex-promotor que trabalhou nos casos do 6 de janeiro. “Talvez o líder nunca tenha tido a intenção ou o poder para cumprir.”

c.2026 The New York Times Company
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