‘Não podemos permitir uma volta ao passado’, diz pré-candidato da Colômbia

A Colômbia tem mais de 30 pré-candidatos para as eleições presidenciais de 2026, entre eles o direitista Miguel Uribe Turbay, que sofreu um atentado a tiros em 7 de junho e está internado em estado grave no hospital. Um dos que está melhor posicionado nas pesquisas é Sergio Fajardo, de centro, que disputou as presidenciais de 2022.

— O atentado a Miguel tornou tudo mais difícil, porque esta campanha ficou marcada por esse episódio — disse Fajardo em entrevista ao GLOBO, de Bogota.

O atentado ao pré-candidato Miguel Uribe Turbay surpreendeu os colombianos e o mundo. Parece uma volta às décadas de 1980 e 1990. O senhor vinha alertando sobre o risco dos discursos de ódio por parte de alguns políticos e sobre como esse ódio podia virar violência de fato. Aconteceu.

A Colômbia sempre teve a violência como parte de sua vida. Em alguns momentos mais forte, em outros, menos. Mas pensávamos que esse tipo de atentado era coisa do passado. Algumas semanas antes do ataque a Miguel, numa entrevista, eu disse que o que mais temia era que a violência verbal nos levasse, aos poucos, à violência física. Já passamos por isso. E veja agora o que aconteceu. Em tempos de polarização e populismo, que caminham juntos, os discursos de ódio são os que mais se destacam. Eu digo que podemos ser diferentes e não ser inimigos. Mas isso não está na moda, ou não estava. Acho que as coisas podem mudar agora.

Como o setor avalia a atitude do presidente Gustavo Petro antes e depois do atentado?

Considero que o presidente de um país deve ser seu primeiro educador. O presidente Petro fala de forma bastante agressiva, e, nesses tempos de campanha eleitoral, sempre acusa seus adversários. A situação do país é culpa de seu antecessor, Iván Duque, que foi um presidente ruim, de fato, e dos que não o deixam governar. Mas Petro é um presidente incapaz. Não conseguiu formar uma equipe, governar eficientemente o país. O que ele faz é criar cortinas de fumaça para desviar a atenção, por exemplo, dos escândalos de corrupção. Terminamos assim, numa situação crítica, e considero que o presidente não esteve à altura do que o país precisa. Deveria ter empatia e ser generoso com seus adversários.

O senhor é um líder de centro, e Uribe Turbay de direita. Como é a relação de vocês?

Miguel já esteve na minha casa, conversamos muito. No sábado do atentado nos vimos. Ele estava fazendo uma carreira política, é uma pessoa respeitável. É tudo muito triste, e o dano para a Colômbia é grande. Temos de cuidar da Colômbia. Não podemos permitir uma volta ao passado.

Outros pré-candidatos dizem que estão ameaçados. Qual sua opinião?

No meio do caos, qualquer pessoa tem uma teoria. Mas ninguém tem uma explicação. O presidente diz que a polícia está infiltrada no ataque, mas onde estão as provas? E se a polícia está infiltrada, em quem podemos confiar? Governar significa ter seriedade. Hoje vivemos numa Colômbia que tem medo, raiva e frustrações. O próximo governo deverá convocar a todos e unir o país. É o que eu represento e proponho. O atentado a Miguel tornou tudo mais difícil, porque esta campanha ficou marcada por esse episódio.

Petro convocou várias pessoas ao palácio presidencial, mas quase ninguém foi. Por que o senhor não aceitou o convite?

Foi tudo mal feito. Recebi uma mensagem pelo WhatsApp de uma pessoa que não conheço, enviada duas horas antes da reunião. O presidente deveria pedir que o convite fosse feito em seu nome, com uma agenda clara, e que fosse público. Com transparência, podem contar comigo. Mas é tudo improvisado. Seu governo é um caos.

Os partidos de direita também adotam discursos de ódio, assim como Petro. É algo novo na Colômbia, mas que já víamos em países como Estados Unidos, Brasil ou Argentina. A sociedade colombiana parece estar rejeitando esses discursos de ódio, o que tem sido uma dificuldade para a direita…

Claro, a direita é parte da polarização. Mas a Colômbia está cansada disso, que eu rechaço. Votei em branco [no segundo turno] em 2018 e em 2022, e me atacaram. A vida vai nos dando a razão. Ser decente não estava na moda, mas a vida é implacável. Está nos mostrando o valor da empatia e da solidariedade.

Algumas pesquisas, entre elas da Atlas Intel, o colocam em primeiro lugar nas pesquisas. Qual a sua expectativa?

Estamos bem, mas é uma longa batalha. Criamos algo diferente, e estamos cada vez mais perto. Sabemos transformar, construir.

Como ficou a sua campanha depois do atentado?

Este tipo de episódio gera medo nas pessoas, em geral. Tenho uma segurança reduzida. Ando pelas ruas e, com duas exceções, ninguém nunca me agrediu ou foi violento comigo. Hoje as pessoas pedem mais segurança para os candidatos, as famílias sofrem. O ambiente mudou, porque o medo limita as pessoas. Mas eu estou bem. Todos temos de ter mais cuidado. O governo deve dar segurança a todos os que estamos na vida pública.

A família de Uribe Turbay disse que pediu mais segurança e não obteve resposta do governo.

É lamentável. Tudo deve ser investigado, temos de acabar com os rumores.

O senhor reforçou sua segurança?

Não falo sobre isso publicamente, acho que não contribui. Eu venho de outro mundo, comecei na política aos 43 anos, era professor de Matemática. Minha forma de ver o mundo é diferente, não vou entrar nessa loucura.

Na campanha de 2022, o tema era a proposta de paz total de Petro com a guerrilha e grupos criminosos. Isso fracassou?

A paz total foi caos total. Hoje a segurança é uma grande preocupação, sofremos um retrocesso, que terminou com este trágico atentado. E podem ocorrer mais se não agirmos com atenção. Mas também há preocupação pela corrupção, saúde, educação, déficit fiscal. Petro fala muito, mas é incapaz de concretizar melhoras. Vamos mostrar que é possível fazer algo diferente.

Se a paz total de Petro fracassou, qual é o caminho?

Sempre defendi as negociações, mas com Petro isso causou um dano terrível. Estamos negociando há 45 anos, e se aprende com isso. Mas o presidente cometeu erros elementares. Foram decretados cessar-fogos parciais, e os vazios deixados pelo Estado foram ocupados por outros. Hoje temos dissidências de dissidências.

Na semana passada, na cidade de Cali, a terceira maior do país, ocorreram 20 atentados. Para ter paz é preciso uma força pública sólida, que ocupe os espaços. Depois vem o desenvolvimento produtivo. O governo errou, e estamos pagando um custo altíssimo.

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