Música no Fantástico: após terceiro acordo com credores, Azul promete sobra de caixa

A Azul Linhas Aéreas (AZUL4) pode pedir música no Fantástico – regalia que o programa dominical da TV Globo dá aos jogadores de futebol que marcam três gols em uma mesma partida. Contrariando o ceticismo do mercado, conseguiu, pela terceira vez, renegociar dívidas com os credores, sem a necessidade de algum tipo de proteção judicial.

Os impactos desses acordos vão ficar mais claros agora em abril, quando bilhões em dívidas serão convertidos em ações. Na Bolsa, a empresa ainda inspira cautela entre os analistas e acumula queda de mais de 11% no ano. Na execução do negócio, porém, a companhia se mostra obstinada a gerar um excedente de caixa ainda no curto prazo.

“Uma coisa que essa reestruturação permite é gerar caixa, que é algo que o mercado realmente cobra da gente”, disse Alex Malfitani, vice-presidente financeiro da Azul, em entrevista ao InfoMoney.

Segundo o executivo, o que outras aéreas conseguiram fazer por meio do Chapter 11 nos Estados Unidos, mecanismo de reestruturação de dívida semelhante à recuperação judicial no Brasil, a Azul fez de forma consensual – sem precisar da ordem de um juiz para que os credores aceitassem ações da empresa. “Fizemos tudo para não ir por esse caminho. Seria o último recurso”, afirmou.

“Deixar de ser um credor com garantia para virar acionista é uma prova de confiança na empresa”, complementou Malfitani.

Uma dívida dos lessores [arrendadores de aeronaves] no valor de R$ 3,1 bilhões foi convertida em pouco mais de 96 milhões de ações no último dia 3 de abril. Na noite de ontem (9), a empresa anunciou a subscrição de mais 1,2 bilhão de novas ações em um segundo aumento de capital, no valor de R$ 72,7 milhões. A empresa afirmou que os controladores estão nas operações.

“Os controladores estão colocando dinheiro novo e fazendo isso com um pouco de prêmio em relação ao preço em que a ação está hoje. Acho que isso também é um sinal de que eles acreditam na empresa”, afirmou John Rodgerson, CEO da Azul, durante a última teleconferência de resultados da companhia.

Ainda este mês, a Azul precisa converter US$ 785 milhões de notas de credores que venceriam em 2029 e 2030. Até 30 de abril, 35% desses bonds serão convertidos em ações preferenciais e 52,5% em novas notas conversíveis. A conversão dos 12,5% residuais está atrelada a uma oferta primária de US$ 200 milhões, que pode ocorrer “a qualquer momento no futuro próximo”, segundo explicou Rodgerson aos analistas.

“Os investidores percebem que a Azul tem uma estratégia sólida, uma das melhores margens da indústria no mundo inteiro, maior que Gol e Latam. Mas não sobra caixa no final. Com essa reestruturação, vai sobrar”, disse Malfitani.

“Quando sobra caixa, eu consigo pagar a dívida mais cara, e gero mais caixa ainda, por reduzir minha despesa com juros. Ou, em vez de fazer arrendamento operacional, que é mais caro, posso fazer um arrendamento financeiro, que é muito mais barato.”

Alex Malfitani, vice-presidente financeiro (CFO) da Azul (Foto: Divulgação)

Dinheiro novo e diluição

Junto à reestruturação da dívida, a Azul também conseguiu dinheiro novo, em uma captação de US$ 525 milhões ao final de janeiro. Pelos cálculos da empresa, todos esses movimentos juntos representam uma redução de R$ 6,3 bilhões na dívida que a companhia tinha ao final do quarto trimestre de 2024.

Essa redução, porém, tem um preço: algo como 55% da companhia, já que os aumentos de capital resultantes desses acordos devem elevar o número de ações da Azul de 500 milhões para mais de 2,3 bilhões. A diluição é um tema que ainda tem deixado os investidores ressabiados.

Com a “equitização” das dívidas, os credores ganham mais poder de decisão na Azul. A companhia acabou de anunciar a assinatura de um acordo de acionistas suplementar em que titulares de notas, ligados à reestruturação, vão poder indicar dois membros independentes para o conselho de administração da companhia.

Além do respiro da redução da dívida, a Azul também viu uma combinação de câmbio e combustíveis mais favoráveis à operação neste começo de ano. Malfitani, no entanto, diz que a empresa não pode ficar refém da volatilidade.

“Eu não posso ter uma companhia área que só funciona quando o dólar está fraco ou quando os juros estão baixos. Temos que ter uma empresa que funcione sempre”, acrescentou.

Novo slogan e possível fusão

A empresa começou o segundo trimestre do ano com slogan novo, “O Céu do Brasil é Azul”, visando estimular o brasileiro voar dentro do país. Não sem antes os clientes mais frequentes da companhia receberem um e-mail com pedido de desculpas do CEO pelos problemas operacionais.

Malfitani diz que a Azul virou essa página. “A gente vê a satisfação do cliente, a pontualidade voltando e a demanda [por voos] do Brasil continua boa”.

Os problemas na cadeia de suprimentos também diminuíram. Segundo o executivo, a Azul tem conseguido encontrar mais aviões e motores no mercado. Em fevereiro, a companhia trouxe um novo vice-presidente técnico “para ter mais cabeças olhando a operação e garantir a regularidade”, diz o CFO.

O cargo foi assumido por André Cruz, profissional com mais de 30 anos no setor aéreo e passagens por Boeing e Gol, onde foi diretor de operações técnicas.

Sobre o tema tema de uma possível fusão com a Gol, Malfitani é discreto e não sai do script do memorando de entendimento não vinculante (MoU, na sigla em inglês), assinado em janeiro com a Abra Group, principal acionista da Gol.

A operação divide opiniões e, por um lado, tem sido criticada por ex-membros do Conselho de Defesa Econômica (Cade), que dará ou não aval ao deal. Recentemente, o órgão arquivou um processo administrativo que apurava o motivo de não ter sido informado sobre um acordo de codeshare entre as duas companhias.

“A gente acredita que, com a fusão, vamos poder servir 200 destinos no Brasil e ter mais frequência de voos. É uma fusão de crescimento que vai trazer mais opções para o cliente brasileiro”, diz Malfitani, evitando rebater as críticas.

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