JPMorgan está preocupado se fluxo para B3 seguirá e prevê 2 trimestres desafiadores

Quem ousa ir contra os fluxos? Em janeiro, a Bolsa de Valores brasileira, a B3, fechou janeiro com um fluxo recorde de investimentos estrangeiros: R$ 26,31 bilhões, superando os R$ 25,47 bilhões aportados ao longo de todo o ano de 2025. Com isso, o índice subiu 12,6% no primeiro mês do ano, tendo o melhor janeiro desde 2006.

Apesar do forte fluxo, os estrategistas do JPMorgan, liderados por Emy Shayo, fazem alguns alertas para o mercado.

“Como estrategistas pouco acostumados a ver movimentos dessa magnitude, nós nos preocupamos. E nossa preocupação, neste momento, é que a história doméstica não seja forte o suficiente para sustentar o mercado quando/ se os fluxos começarem a diminuir”, apontam.

Eles reforçam que há dois gatilhos para o Brasil em 2025: o ciclo de afrouxamento monetário e as eleições. Enquanto o primeiro está sendo rapidamente precificado, o segundo não. E, historicamente, aponta, o mercado não se sai bem em ciclos eleitorais.

Por isso, acreditam que o 2T e o 3T no Brasil serão bem mais desafiadores. “Na ausência de suporte global vindo de um dólar fraco/ fluxos positivos, achamos que o mercado brasileiro deve fazer topo entre o fim do 1T e o início do 2T, por volta do começo do ciclo de corte de juros. A boa notícia é que continuamos positivos em relação a emergentes como um todo e pouco preocupados com valuations”, ressalta.

O Brasil não costuma ir bem antes das eleições…

Os analistas ficam de olho nas eleições de outubro e ressaltam que em, cinco das seis eleições que ocorreram neste século, o real se desvalorizou nos seis meses anteriores à votação. Também em cinco de seis episódios, o Ibovespa e o MSCI Brazil tiveram desempenho negativo.

Em média, nos seis meses que antecedem as eleições:
– Real enfraquece 15%,
– Ibovespa cai 8,5%,
MSCI Brazil recua 20%.

Se excluir 2002 — quando a distorção de preços foi maior, pois Lula foi eleito pela primeira vez —, as médias ficam em:
– desvalorização do real de 7,8%,
– queda de 2,3% no Ibovespa,
– recuo de 11,2% no MSCI Brazil.

Em média, o MSCI Brazil registrou um desempenho abaixo do MSCI EM (emergentes) em 8,9% nos seis meses anteriores às eleições.

…e, mais recentemente, o mercado tem antecipado os cortes de juros

O JPMorgan aponta que há uma diferença enorme na forma como a Bolsa se comporta durante ciclos de afrouxamento monetário.

O desempenho é bem melhor quando o corte de juros acontece em períodos de melhora de política econômica, isto é, quando reformas que permitem uma posição fiscal mais saudável estão em curso.

Os dados mostram ganhos muito fortes em 2005–2007, 2009 e 2016–2018, que foram períodos transformacionais no Brasil (2009 um pouco menos), apontam, ponderando que há uma distinção grande entre o desempenho médio do mercado durante ciclos de corte de juros (24,2% para o MSCI Brazil, nos últimos 20 anos) e a mediana (7,9%).

“Por fim, nos dois últimos ciclos de afrouxamento, as ações anteciparam o movimento: a Bolsa andou mais nos três meses anteriores ao início dos cortes do que durante o ciclo em si”, avalia a equipe de estratégia.

É um caso de “compra no boato, vende no fato”?

O banco aponta que a curva de juros já precifica 270 pontos-base de cortes (ou 2,7 pontos percentuais), contra 350 pontos na projeção do JPMorgan (o banco tem mostrado repetidamente que o mercado costuma subestimar a queda de juros). A curva passou, inclusive, a embutir mais afrouxamento no último mês, à medida que o real se apreciou.

Vale notar que duas reuniões de política monetária acontecerão depois do segundo turno das eleições, o que adiciona incerteza relevante às decisões sobre a taxa de juros, dado o impacto potencial da reação dos ativos pós-resultados. “É a primeira vez que o país combina eleições com ciclo de corte de juros, o que torna especialmente difícil precificar esse quadro”, aponta o JPMorgan.

Ainda assim, os juros reais seguem altos demais

Para o banco, a história completa depende de os juros reais caírem para níveis menos extremos. Segundo estimativas do JPMorgan, a taxa real do Brasil está em 7,6%, considerando projeções de inflação e juros de fim de ano.

Historicamente, o Brasil é o país com maior juro real, justamente porque tem o pior quadro fiscal. O que faria o prêmio de risco de ações cair — abrindo espaço para ganhos extraordinários na bolsa — seria uma política fiscal crível, que permitisse que a taxa real convergisse para níveis semelhantes à média dos emergentes, e não apenas cortes pontuais de 250 ou 350 pontos-base na Selic.

“Podemos torcer para que este seja apenas o primeiro passo de um ciclo mais longo, mas, neste momento, não há garantia de que isso será alcançado. Os 350 pontos-base de cortes que o JPMorgan projeta para a Selic são o menor ciclo deste século, com exceção do último (2023/24), quando os juros caíram 275 pontos-base. É algo positivo, mas não transformacional”, aponta.

Para comparação: em 2005, com políticas caminhando na direção correta, a Selic caiu 850 pontos-base, chegando a 11,25%; em 2016–2018, no chamado “dividendo das reformas”, os juros recuaram 775 pontos-base, de 14,25% para 6,5%.

Para mais altas, fluxos precisam continuar

Os fluxos para emergentes até 6 de fevereiro somavam US$ 47 bilhões, cerca de US$ 18 bilhões acima de todo o volume de 2025. A maior parte desses recursos (cerca de US$ 36 bilhões) entrou via ETFs (fundos de índices), que tendem a favorecer large caps em mercados com forte participação de estrangeiros — caso do Brasil, onde 60% do volume médio diário é negociado por não residentes.

Fundos globais, que somam US$ 40 trilhões em ativos sob gestão (AUM), seguem com baixa exposição em ações de emergentes (5,3% de alocação, contra algo como 11,5% num patamar neutro). Pequenos ajustes nessa direção podem fazer grande diferença. Na B3, os fluxos têm sido excepcionalmente fortes.

O JPMorgan acredita que esse ambiente pode continuar. Nos relatórios recentes de emergentes, o banco defende que: o dólar deve seguir se enfraquecendo; o ciclo de IA tende a dar lugar a um novo boom de commodities, beneficiando emergentes e América Latina.

Além disso, pela primeira vez desde a Covid, o Brasil negocia em linha com sua média de 10 anos, ainda é um nível considerado razoável. “Em termos absolutos, o Brasil só está mais caro do que Egito, Turquia, Hungria e Grécia“, aponta. Em geral, o banco diz não estar preocupado com valuation nesse patamar, embora reconheça que, conforme o mercado sobe, o preço relativo ganhe mais peso.

Setorialmente, o banco vê que ainda há bolsões de atratividade: Energia segue bastante barata; Materiais básicos continuam com desconto em relação a GEM e pares globais, embora já um pouco acima da média de 10 anos; Financeiro, maior setor do índice, está em linha com EM, mas cerca de 12% acima da média de 10 anos; Utilities também negociam com prêmio de quase 30% em relação à própria média histórica.

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