A investigadora da Polícia Civil de São Paulo Tânia Aparecida Nastri depositou em juízo fiança de R$ 20 mil para não ser presa. Ela está sob suspeita porque teria usado suposto prestígio seu junto a nomes do alto escalão da corporação para pegar propinas de policiais investigados em processos disciplinares na Corregedoria.
O valor foi estipulado pelo juiz Paulo Fernando Deroma de Mello, da 1ª Vara de Crimes Tributários, Organização Criminosa e Lavagem de Bens e Valores da Capital. Tânia também colocou tornozeleira eletrônica e entregou seu passaporte. Um colega dela, Carlos Huerta, alvo da mesma investigação, seguiu o mesmo procedimento para não ficar preso preventivamente.
As suspeitas recaíram sobre os dois investigadores após a prisão de outros dois policiais – Valdenir Paulo de Almeida, o ‘Xixo’, e Valmir Pinheiro, o ‘Bolsonaro’ -, em setembro de 2024 por supostamente receberem propina de R$ 800 mil do tráfico para barrar investigações contra faccionados.
Até a publicação deste texto, o Estadão buscou contato com Tânia e Huerta, mas sem sucesso. Este espaço segue aberto. Os investigadores ainda não prestaram depoimento sobre as suspeitas que pesam contra eles.
Os dois investigadores estão proibidos de deixar as cidades onde residem (Tânia mora em São Paulo, Huerta em Atibaia) por mais de cinco dias sem autorização judicial. Também tiveram o exercício da função pública suspenso e as armas apreendidas. O monitoramento eletrônico de policiais, via tornozeleira, é uma decisão inédita da Justiça em São Paulo.
Na quinta, 12, equipes da Corregedoria fizeram buscas nos endereços dos dois, inclusive em suas residências e ambientes de trabalho – Tânia atuava no DOPE (Departamento de Operações Policiais Estratégicas), Huerta era o chefe dos investigadores da 13.ª Delegacia (Casa Verde).
Com os dois foram recolhidos celulares e notebooks – Tânia tinha em seu poder US$ 10 mil e R$ 20 mil em espécie. Com autorização judicial, os corregedores deram início à extração de dados dos aparelhos. A expectativa é que os arquivos possam conter pistas que revelem a extensão exata do esquema de exploração de prestígio atribuído à Tânia e Huerta em troca de vantagens em dinheiro e viagens internacionais bancadas por policiais supostamente ligados com o crime organizado.
Segundo a investigação conduzida por promotores do Gaeco (grupo do Ministério Público que combate o crime organizado) e pela Corregedoria da Polícia, Tânia e Huerta alegavam proximidade com a cúpula da Delegacia-Geral de Polícia. A investigação mostra que o ex-delegado-geral Nico Gonçalves, atual secretário de Segurança Pública, e o deputado estadual Delegado Olim – nomes de peso e respeitados na Polícia paulista – foram vítimas dos investigadores que usaram seus nomes para tentar interferir em apurações internas da Corregedoria.
‘Tenho que correr atrás dessa porra aí’
“A análise do material compartilhado revelou o conteúdo de whatsApp do celular de Valdenir Paulo de Almeida, vulgo ‘Xixo’, sendo constatada troca de mensagens com a investigadora de polícia Tânia Aparecida Nastri e com o investigador de polícia Carlos Huerta”, diz a decisão que autorizou as buscas da Corregedoria, assinada pelo juiz Paulo Fernando Deroma de Mello.
Durante a Operação Face Off, deflagrada em setembro de 2024, o celular de “Xixo” foi apreendido e, em análise posterior da perícia pela Polícia Federal, revelou conversas com o investigador Carlos Huerta.
Segundo a Corregedoria e promotores do Gaeco, para reforçar sua influência junto à cúpula da corporação e resolver problemas particulares, de seu parceiro ‘Bolsonaro’ e do próprio Huerta, ‘Xixo’ afirmou que iria “mexer seus pauzinhos” e que tinha “uma mulher lá” – na Delegacia-Geral de Polícia ou na própria Corregedoria Geral.
“Vou dar uma mexidinha nos pauzinhos para nós aí, tá? Qualquer coisa te dou um alô também, está bom, amigo? Tenho que correr atrás dessa porra aí”, escreveu ‘Xixo’ em maio de 2022.
“Não, está bom, velho, tenta sim porque…É, aquilo lá, né? Estão pedindo os imóveis de todo mundo, essas coisas aí… foda, viu? Vamos que vamos, velho, vai dar tudo certo, se Deus quiser”, respondeu Huerta, referindo-se a uma investigação da Corregedoria no rastro da evolução patrimonial do grupo.
Para o Ministério Público, “Huerta demonstra muita preocupação e afirma que a Corregedoria está realizando apuração de evolução patrimonial (pesquisa de imóveis) sua e demais investigados, e pede assim que ‘Xixo’ tente realizar tráfico de influência em interesse particular dos investigados pela Corregedoria junto à Delegacia Geral de Polícia”.
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