Inflação de janeiro tem “resistência técnica”, mas não limita corte de juro em março

A alta de 0,33% na inflação de janeiro, medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), foi vista por economistas e analistas de mercado como uma “resistência técnica” e até uma “reversão na tendência de desinflação”, mas nada que possa limitar a abertura de janela para o início do ciclo de corte de juros na próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), em março.

As análises consideram que o país acumula alta de 4,44% nos últimos 12 meses, acima do registrado em dezembro (4,26%) e distante da meta de 3% – ainda que dentro da banda de tolerância, que vai até 4,5%. No entanto, o resultado de janeiro foi influenciado por preços administrados que refletem a sazonalidade do período, e tendem a diminuir a pressão ao longo do ano.

Combustíveis x energia elétrica

A composição do índice em janeiro foi marcada pela diferença entre preços administrados. Do lado das altas, a gasolina foi o grande destaque, com avanço de 2,06% devido ao aumento do ICMS sobre o combustível, além de uma majoração nos preços do etanol. O grupo de Transportes, impulsionado pelos combustíveis, teve alta de 0,6%.

Lucas Ghilardi, especialista em investimentos e sócio da The Hill Capital, destaca que a gasolina foi responsável por 0,10 ponto percentual do índice, sendo o “vilão” do mês. Contrabalançando essa pressão, a ativação da bandeira verde nas tarifas de energia elétrica gerou uma deflação de cerca de 2,7% no item energia, ajudando a conter o índice cheio.

Outro fator que segurou a inflação foi o comportamento dos alimentos no domicílio. Alexandre Maluf, economista da XP, classifica a leitura como “bastante fraca” para este grupo, com alta de apenas 0,10%. Ele destaca os preços do leite, que teve deflação de 2,3%; e aves e ovos, com queda de 1,4%.

Variação do IPCA por grupo de produtos e serviços
Variação (%)
Grupo Dezembro Janeiro
Índice Geral 0,33 0,33
Alimentação e bebidas 0,27 0,23
Habitação -0,33 -0,11
Artigos de residência 0,64 0,2
Vestuário 0,45 -0,25
Transportes 0,74 0,6
Saúde e cuidados pessoais 0,52 0,7
Despesas pessoais 0,36 0,41
Educação 0,08 0,02
Comunicação 0,37 0,82
Fonte: IBGE

Resistência técnica, não repique

Para os analistas, o dado de janeiro não configura uma volta descontrolada da inflação. “Não estamos vendo um ‘repique’, que seria uma reversão clara da tendência de queda com altas generalizadas, mas sim uma resistência técnica”, avalia Ghilardi. Ele pondera que o processo de desinflação se tornou “mais lento e difícil”, mas não acabou.

Lucas Barbosa, economista da AZ Quest, classifica o número como “neutro”, atribuindo a surpresa altista a itens voláteis, como higiene pessoal (perfumes subiram 3%) e conserto de automóveis, além de um efeito sazonal residual da Black Friday em bens duráveis. “O número, no final do dia, não é tão feio quanto parece por conta desses itens voláteis”, afirma Barbosa.

Já André Valério, economista sênior do Inter, nota uma piora na margem, mas dentro do esperado para a sazonalidade do período. Ele destaca que, embora a média móvel de 3 meses dos núcleos tenha acelerado, indicando reversão na tendência de curto prazo, o nível ainda é consistente com uma inflação controlada.

Pressão em Serviços e mercado de trabalho

O ponto de atenção continua sendo o setor de serviços e a pressão do mercado de trabalho aquecido. Pablo Spyer, conselheiro da Associação Nacional das Corretoras e Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários, Câmbio e Mercadorias (Ancord), alerta que os núcleos e serviços subjacentes vieram mais pressionados do que o previsto.

“A persistência da inflação de serviços sugere que a demanda ainda não está completamente arrefecida”, diz Spyer, ressaltando que o patamar de 4,44% em 12 meses é “desconfortável”.

Julio Barros, economista do Banco Daycoval, concorda que existem desafios no curto prazo ligados à atividade econômica. Embora a inflação de serviços tenha vindo em patamar baixo, puxada pela queda de passagens aéreas, a parte ligada ao mercado de trabalho “segue bem pressionada”.

Por outro lado, Maluf, da XP, vê uma desaceleração nos serviços, tanto na métrica de 12 meses quanto na média móvel trimestral anualizada, o que considera positivo.

Copom: corte de 0,25 p.p. ou 0,50 p.p.?

A divulgação do IPCA consolidou as apostas de que o Copom iniciará o corte de juros em março, embora haja divergência sobre a magnitude.

A maioria dos analistas consultados projeta um corte mais agressivo, de 0,50 ponto percentual. Para a XP Investimentos, o início do ciclo começa com queda de 0,50 p.p., com Selic fechando o ano em 12,5%. O Inter tem a mesma avaliação e a AZ Quest, que espera o mesmo corte de 50 bps, pondera ainda que o Copom deverá ler o número do IPCA como “neutro”. Já a The Hill Capital espera o mesmo corte de 0,50 p.p., mas vê espaço para juros terminais de 12% em 2026.

Em uma vertente mais cautelosa, Julio Barros, do Daycoval, mantém a expectativa de início de corte de 0,25% em março, citando que o cenário de desinflação reflete mais o câmbio do que a desaceleração da atividade.

Pablo Spyer, da Ancord, segue a mesma linha: “O cenário-base segue apontando para um corte de 0,25 ponto percentual em março, enquanto a probabilidade de um corte de 0,50 ponto percentual diminui caso os núcleos sigam pressionados”.

Mariana Rodrigues, da SulAmérica Investimentos, destaca que, independente da magnitude inicial, a rota não mudou: “O resultado do IPCA não altera nossa avaliação para a inflação nem para a condução da política monetária”.

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