A cerimônia realizada nesta quinta-feira (8) no Palácio do Planalto para marcar os três anos dos ataques de 8 de Janeiro evidenciou o atual estágio de desgaste na relação entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o Congresso Nacional.
Embora concebido como um ato institucional de defesa da democracia, o evento ocorreu sob o impacto do anúncio do veto integral ao projeto de lei da dosimetria das penas, aprovado pelo Parlamento no fim de 2025. Ao transformar a assinatura em um ato político, o petista reforçou o distanciamento entre Executivo e Legislativo neste início de ano.
Com o veto já previamente anunciado, os presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), decididiram não comparecer, apesar de ambos terem sido formalmente convidados. Nos bastidores, a avaliação foi a de que a ausência esteve relacionado ao cálculo político em torno de sua repercussão no Congresso.
Rui Costa diz que governo deve vetar R$ 11 bi em emendas aprovadas pelo Congresso
Ministro afirma que governo pode bloquear o pagamento de parte das emendas
Após veto, objetivo será reverter 35 votos da dosimetria, diz líder do PT na Câmara
Presidente Lula utilizará evento que marca três anos dos atos golpistas para anunciar veto ao projeto que reduz penas do 8 de janeiro
Segundo aliados, Motta foi avisado com antecedência por Lula de que o veto à dosimetria seria integral, informação que pesou na decisão do presidente da Câmara de não comparecer ao evento.
A leitura feita por parlamentares é a de que a decisão do Planalto, ao barrar por completo um texto aprovado com larga maioria, tende a complicar a relação do governo com o Congresso logo na largada do ano legislativo e “azedar” o ambiente político nas próximas semanas.
O esvaziamento institucional foi ampliado pela ausência de ex-presidentes das Casas, como Rodrigo Pacheco (PSD-MG) e Arthur Lira (PP-AL). A ausência conjunta das atuais e antigas cúpulas do Legislativo reforçou a percepção, entre parlamentares e integrantes do próprio governo, de que o evento acabou funcionando como um retrato do momento delicado da relação entre os Poderes.
Em contraste, o Planalto reuniu sobretudo integrantes do Executivo, comandantes militares, dirigentes de órgãos de segurança, governadores aliados e parlamentares da base governista e da esquerda.
A composição do público reforçou a leitura, dentro e fora do Congresso, de que a cerimônia teve caráter predominantemente governista, sem a presença institucional do Parlamento em sua cúpula.
O veto integral anunciado por Lula recai sobre um projeto aprovado nas duas Casas. Na Câmara, o texto passou por 291 votos a 148; no Senado, por 48 a 25.
A proposta alterava regras de dosimetria penal aplicáveis aos condenados pelos atos golpistas de 8 de Janeiro, reduzindo o tempo mínimo de cumprimento de pena em regime fechado e alcançando diretamente o ex-presidente Jair Bolsonaro.
Defensores do projeto sustentaram que se tratava de um ajuste técnico no cálculo das penas, e não de anistia, argumento rechaçado pelo governo desde o início da tramitação.
A passagem da proposta pelo Senado expôs, ainda, tensões internas no próprio governo. A votação ocorreu após um acordo de procedimento articulado pelo líder do governo na Casa, Jaques Wagner (PT-BA), que admitiu ter defendido o avanço da dosimetria diante da avaliação de que a maioria já estava formada, em troca de apoio para destravar a pauta econômica.
A iniciativa gerou irritação no Planalto e foi vista por auxiliares de Lula como um fator adicional de desgaste na relação com o Congresso.
Desde a votação na Câmara, parlamentares já vinham associando a dosimetria a um ambiente mais amplo de insatisfação com o governo, especialmente em relação ao ritmo de liberação das emendas parlamentares.
Conversas flagradas em plenário mostraram deputados tratando a pauta como instrumento de pressão sobre o Executivo. Após a confirmação do veto integral, a reação foi imediata: o deputado Paulinho da Força (Solidariedade-SP), relator do projeto na Câmara, reuniu-se com o senador Esperidião Amin (PP-SC), relator no Senado, sinalizando que o Parlamento passou a se organizar para derrubar a decisão presidencial.
Aliados de Motta e Alcolumbre afirmam que há hoje votos suficientes para reverter o veto em sessão do Congresso, o que deve elevar a tensão entre os Poderes logo nas primeiras semanas do ano legislativo.
O episódio se soma a outros atritos recentes entre Planalto e Senado, como a indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal, que contrariou parte dos senadores e contribuiu para um clima de desconfiança entre o governo e a cúpula do Legislativo.
No conjunto, esses movimentos ajudam a explicar por que o ato desta quinta-feira funcionou menos como um momento de unidade institucional e mais como um sinal das dificuldades atuais de coordenação política entre Lula e o Congresso.
The post Evento no Planalto sobre 8/1 evidencia desgaste na relação do governo com o Congresso appeared first on InfoMoney.
