O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, surpreendeu a comunidade internacional no sábado (3), não apenas com a operação de captura do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, mas com declarações inéditas sobre “administrar” o país sul-americano. A avaliação é de Maurício Santoro, doutor em Ciência Política pelo Iuperj e colaborador do Centro de Estudos Político-Estratégicos da Marinha do Brasil, em entrevista ao InfoMoney.
“A declaração de Trump hoje à tarde foi um terremoto político por ser diferente do que ele vinha dizendo nos últimos meses”, explica Santoro. Segundo ele, foi a primeira vez que os Estados Unidos mencionaram a possibilidade de “administrar” a Venezuela e de ter presença na indústria petroleira local.
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Nicolás Maduro rejeitou a ideia de um exílio confortável. Por isso, as autoridades dos EUA passaram a apostar em uma opção mais flexível: a vice-presidente Delcy Rodríguez, conhecida por ter estabilizado a economia da Venezuela
Ele ressalta que a presença dos EUA seria desafiadora, especialmente considerando a crise econômica e a infraestrutura fragilizada do país. Por isso, a declaração de Trump sobre “administrar” a Venezuela foi recebida com surpresa.
“Ocupar um país deste tamanho não é trivial”, afirma Santoro. O professor destaca as dimensões territoriais da Venezuela e as particularidades de sua população como fatores que tornam uma eventual ocupação extremamente complexa.
As críticas de Trump à líder da oposição venezuelana e vencedora do Prêmio Nobel da Paz de 2025, Corina Machado, também foram inéditas.
O presidente americano afirmou que, apesar de considerá-la uma boa pessoa, Corina não possui apoio ou respeito dentro do país, o que a tornaria inadequada para governar a Venezuela.
“A maioria de nós imaginava que haveria algum tipo de negociação para que a oposição assumisse o poder”, diz Santoro.
Nesse contexto, o professor aponta que o vencedor das eleições de 2024, Edmundo González, aliado direto de Machado, seria o nome mais provável para liderar o país. “A reação de Macron foi muito interessante, porque ele celebrou a queda de Maduro, mas rapidamente mencionou o embaixador Edmundo”, afirma Santoro.
Embora considere possível que o governo americano mude de posição, dado o histórico de declarações voláteis de Trump, Santoro lembra que os Estados Unidos já adotaram estratégias semelhantes no passado, como na Alemanha e no Japão após a Segunda Guerra Mundial, além de intervenções na América Central no início do século XX.
Quebra-cabeça para Brasil
Santoro destaca que a primeira manifestação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva foi técnica e institucional. “A nota do governo brasileiro foi muito boa, pois focou nos princípios do direito internacional”, diz.
A estratégia de não mencionar diretamente Nicolás Maduro, líder da Venezuela, nem Donald Trump, indica que o governo brasileiro buscou tratar a situação como uma questão mais ampla, além de personalismos. “A ideia é mostrar quais são os princípios que o Brasil defende”, afirma Santoro.
Ainda assim, o professor acredita que o presidente Lula enfrentará um quebra-cabeça político enquanto a situação persistir. “Há um desgaste na relação entre Lula e Maduro há alguns anos, especialmente após as eleições e a repressão contra a oposição”, diz.
Ele lembra que a atuação do regime de Maduro nos últimos anos gerou distanciamento de alguns integrantes do governo brasileiro. No entanto, o Partido dos Trabalhadores (PT) segue como apoiador de Maduro e do regime bolivariano, como demonstrado na nota oficial divulgada pela legenda.
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