O renomado gestor Rogério Xavier, sócio-fundador da SPX Capital, afirmou nesta terça-feira (10) que o governo dos Estados Unidos pode caminhar para uma mudança relevante na estratégia de financiamento da dívida pública, fazendo com que o modelo americano fique mais próximo do praticado no Brasil.
“Quem entende como funcionam o Tesouro e o Banco Central brasileiros entende o que pode acontecer nos Estados Unidos”, disse Xavier em evento promovido pelo BTG Pactual. Segundo ele, o movimento deve envolver encurtamento dos prazos da dívida e emissão, em larga escala, de títulos atrelados ao Fed Funds – similares, portanto ao Tesouro Selic no Brasil.
Com isso, disse, o Tesouro americano pretende gerar escassez no longo prazo, forçando uma queda do juro longo, mais relevante para financiamento imobiliário e investimentos produtivos.
Na visão de Xavier, uma estratégia desse tipo pode provocar distorções importantes no mercado de Treasuries, especialmente no segmento longo da curva. “O swap spread (diferença entre swap de juros e juros do Tesouro) deve abrir nos EUA”, afirmou, acrescentando que esse cenário enfraquece a lógica de posições vendidas em títulos longos americanos.
Segundo o gestor, o pano de fundo para essa possível mudança é um ambiente macroeconômico que combina crescimento ainda robusto, inflação em desaceleração e enfraquecimento gradual do mercado de trabalho, o que abriria espaço para cortes adicionais de juros pelo Federal Reserve. “Se o Fed continuar cortando juros, os mercados tendem a continuar performando bem”, disse, em tom otimista.
Preocupação com relação Tesouro–Fed
André Jakurski, sócio-fundador da JGP, que participou do mesmo evento, demonstrou preocupação com discussões recentes sobre uma eventual renegociação do acordo que rege a relação entre o Tesouro americano e o Fed desde 1951, que garantiu a independência da política monetária no pós-guerra.
“Esse tipo de conversa acende um alerta no mercado”, falou, citando temores de mudanças abruptas nas regras para investidores estrangeiros e no tratamento de fluxos de capital. Segundo ele, mesmo sem medidas concretas, a simples discussão já altera expectativas e posicionamento.
Apesar de mais otimista com a economia dos EUA, Xavier concorda com a visão mais cautelosa com o nível de corrosão institucional americana. “Quando eu ouço falar em mexer nesse acordo [entre Tesouro e Fed], a primeira coisa que vem à cabeça é: qual é a mágica que eles querem fazer?”, disse.
Segundo ele, experiências históricas mostram que juros artificialmente contidos, combinados com inflação mais alta, podem reduzir rapidamente a relação dívida/PIB, mas à custa de distorções relevantes no mercado financeiro. “Isso gera muita incerteza para quem investe”, afirmou.
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