Do Kichute à Havaianas: a história da centenária Alpargatas

Os holofotes do mercado foram lançados às ações da Alpargatas (ALPA4) às vésperas do Natal. O motivo de uma queda próximo a 3% no papel nesta segunda-feira (22) não foi o crescimento das vendas próximo às festas de fim de ano ou resultados abaixo do esperado, mas a repercussão nas redes sociais de uma campanha de fim de ano lançada pela companhia nos últimos dias.

Após a divulgação de uma peça publicitária estrelada pela atriz Fernanda Torres, em que ela afirma não desejar que as pessoas “comecem o ano com o pé direito” políticos bolsonaristas, como o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, foram às redes se manifestar. Apesar do vídeo não conter mensagens políticas — a atriz afirma que quer começar o ano “com os dois pés”, em uma postura mais ativa e menos sujeita à sorte –, o político estimulou um boicote à produtora de calçados.

Essa é apenas uma parte da história centenária da companhia, que teve início em 1907, no bairro da Moosca, em São Paulo, fruto de uma parceria entre o escocês Robert Fraser e um grupo inglês. Sob o nome de São Paulo Alpargatas Company, a empresa nasceu para atender à demanda por calçados resistentes para o trabalho. A peça, batizada de Alpargatas Roda, logo se tornou comum nas plantações de café em meio ao crescimento da indústria cafeeira paulista.

Ainda em 1913, a companhia abriu o seu capital na Bolsa de Valores de São Paulo, tornando-se a mais antiga companhia ainda listadas no que hoje se chama B3. Entre as décadas de 1910 e 1920, a companhia relata ter sido duramente impactadas. Primeiro, pela dificuldade de acessar matéria-prima em meio a Primeira Guerra Mundia; segundo, com a crise nacional de superprodução de café e a quebra da Bolsa de Nova York, que levaram à interrupção da produção da Alpargatas Roda.

Os ventos começaram a mudar na década de 1930, quando a produção da Alpargatas Roda foi retomada. A companhia, que na década de 1910 chegou a produzir lonas para secagem de café e cobertura de vagões de trem, desenvolveu também nos anos 1930 seu primeiro calçado de couro.

Durante a Revolução Constitucionalista de 1932, movimento armado liderado por São Paulo para destituir o governo provisório de Getúlio Vargas, a companhia chegou a produzir barracas, fardas e mochila de uso militar. Em meio a Segunda Guerra Mundial, entre o fim dos 1930 e meados de 1940, a companhia desenvolveu o Brim Coringa, tecido usado nos primeiros modelos de calças jeans brasileiros.

Quase todos os calçados lançados pela Alpargatas se tornariam icônicos no imaginário brasileiro a partir daí. Em 1962, a companhia lançou as Havaianas, “inspiradas em uma típica sandália japonesa chamada Zori”, segunda conta sua página oficial. O produto se tornou um sucesso a tal ponto que, na década de 1980, foi incluído como um dos itens da cesta básica do brasileiro.

Antes de a abertura comercial do Brasil popularizar marcas de calçados internacionais no país, a Alpargatas foi uma importante marca também de artigos esportivos. No ano do tricampeonato mundial da Seleção Brasileira, 1970, a companhia celebrava o lançamento do Kichute, híbrido entre tênis e chuteira desenvolvido pela companhia. No fim da década, a Alpargatas ainda lançaria a marca Topper e compraria a Rainha.

Na década de 1990, em meio à abertura comercial do Brasil para o mundo, a companhia decide fazer um relançamento da Havaianas — dessa vez, em busca do mercado global. Segundo registros do canal oficial da companhia, o calçado bateria o recorde de 100 milhões de pares vendidos. O movimento seria potencializado ainda nos anos 2000, com a abertura de operações nos Estados Unidos e escritórios na Espanha, Reino Unido, França e Itália.

E a empresa foi às compras. Já nos anos 1990 a Alpargatas licencia as marcas Timberland e Mizuno. Em 2007, adquire a pernambucana Dupé e 60% da Topper Argentina. Na década seguinte, no ano de 2014, a companhia adquire ainda 60% do capital da Osklen.

Depois do ciclo de aquisições, foi a hora de desinvestimentos. A partir da metade dos anos 2010, a Alpargatas se desfez das operações da Topper no Brasil e na Argentina, bem como da Rainha e do licenciamento da Timberland. Entrou no portfólio da multinacional dos calçados a Osklen em uma compra de 60% de participação. Em 2021, a empresa adquiriria a marca premium americana Rothy’s.

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