No início do ano passado, a Chevron parecia estar com os dias contados na Venezuela.
A empresa era a última grande petrolífera americana ainda produzindo no país sul-americano, anos depois de outras, como Exxon Mobil e ConocoPhillips, terem saído. Por anos, a Chevron operou com isenções temporárias das sanções dos EUA. Mas, no fim de fevereiro de 2025, o então presidente Donald Trump disse que bloquearia a produção da empresa na Venezuela.
Dez meses depois, a situação mudou completamente. Trump voltou atrás no meio do ano e permitiu que a Chevron continuasse operando no país. Agora, a empresa está em posição privilegiada para se beneficiar depois que as forças americanas capturaram o presidente Nicolás Maduro no último fim de semana em Caracas e aumentaram a pressão para que o país receba mais investimentos das empresas de energia dos EUA.
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Essa reviravolta aconteceu, em parte, graças a um forte trabalho de lobby, que incluiu várias conversas no último ano entre Trump e Mike Wirth, o discreto CEO da Chevron.
Mas foi uma aposta feita há cerca de 20 anos que diferenciou a Chevron das outras produtoras americanas na Venezuela. Na época, Hugo Chávez, presidente do país, estava nacionalizando partes da indústria petrolífera, obrigando investidores estrangeiros a aceitarem participações menores nos projetos, sem compensação.
A Exxon, maior empresa de petróleo dos EUA, e a ConocoPhillips saíram do país e vêm tentando, sem muito sucesso, receber bilhões de dólares em indenizações da Venezuela. A Chevron viu uma oportunidade.
“Se a gente saísse toda vez que tivesse um desentendimento com o governo, estaríamos saindo de todo lugar, inclusive daqui”, disse Wirth ao The Wall Street Journal no mês passado.
A Venezuela é conhecida por ter as maiores reservas de petróleo do mundo e, por um tempo, explorou seus recursos com força — em 1997, produzia quase 5% do petróleo mundial. Mas má gestão, corrupção e descaso enfraqueceram a indústria, e hoje o país produz cerca de 1% do petróleo global.
Para a Chevron, a justificativa para continuar na Venezuela era simples, explicou Ali Moshiri, que comandava as operações da empresa no país na época. Em 2006, a empresa assinou um novo contrato que lhe dava participação acionária em um projeto importante, em vez de receber uma taxa pela produção, disse Moshiri, que tinha boa relação com Chávez.
Outras empresas não gostaram das mudanças que Chávez queria porque ganhariam menos do que seus contratos previam. Mas Moshiri viu o lado positivo: os lucros da Chevron poderiam crescer se o preço do petróleo subisse no futuro.
“A gente tinha participação nas reservas e também aproveitava a valorização”, contou Moshiri em entrevista recente ao The New York Times, lembrando como explicou isso para o conselho da Chevron. “A alternativa era fazer como a Conoco: sair do país e esperar para receber.”
A Chevron tem uma visão de longo prazo em vários países, além da Venezuela, como no Cazaquistão, na Ásia Central, que tem alguns dos maiores campos de petróleo do mundo, e em Israel, onde desenvolve dois grandes campos de gás.
Continuar na Venezuela pode trazer ainda mais vantagens para a Chevron. Como a única empresa ocidental autorizada pelo governo dos EUA a exportar petróleo venezuelano, ela está em posição, se as condições políticas melhorarem, para aumentar a produção mais rápido do que empresas que não têm presença no país.
Os investidores estão otimistas. As ações da Chevron subiram mais de 5% na segunda-feira (5), superando o mercado em geral, enquanto Maduro era indiciado em Nova York. A empresa, que não disponibilizou Wirth para entrevista, disse que continuou operando na Venezuela “em total conformidade com todas as leis e regulamentos”.
As ações da SLB e da Weatherford, empresas que fazem grande parte da perfuração e outros serviços para produtores como a Chevron, tiveram ganhos ainda maiores, em torno de 9%. Os investidores apostam que essas empresas de serviços vão lucrar bastante com o maior acesso aos campos petrolíferos venezuelanos.
Mas qualquer aumento significativo na produção de petróleo da Venezuela vai levar anos e exigir investimentos na casa das dezenas de bilhões de dólares. Por enquanto, as sanções dos EUA continuam valendo, assim como a “quarentena” para muitos navios-tanque usados para exportar o petróleo venezuelano.
Também há o preço do petróleo, que na segunda-feira estava abaixo de US$ 60 o barril, mesmo depois de uma alta de quase 2%. Sem preços mais altos, as empresas dificilmente vão se apressar para novos projetos, ainda mais em um país com tantos riscos políticos como a Venezuela.
Mesmo que operar na Venezuela fique mais fácil, as empresas americanas dificilmente vão investir muito sem garantias de que poderão atuar no país por muitos anos sem risco de mudanças nos contratos ou nacionalizações.
Wirth explicou esse dilema em uma teleconferência de resultados em 2023, dizendo que, por operar com uma licença temporária do Departamento do Tesouro, a Chevron não estava fazendo “investimentos grandes” na Venezuela.
c.2026 The New York Times Company
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