China sobe o tom contra os EUA sobre a Venezuela e fala em “ato de intimidação”

A China criticou o governo de Donald Trump por, segundo relatos, exigir que a Venezuela rompa alianças com rivais dos Estados Unidos, classificando a iniciativa como um “ato de intimidação”, à medida que a disputa por influência na região surge como uma nova fonte de atrito.

“O uso descarado da força pelos EUA contra a Venezuela e a exigência de que o país favoreça a América ao administrar seus próprios recursos de petróleo — isso é um típico ato de intimidação”, disse a porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Mao Ning, a repórteres em uma coletiva regular em Pequim, nesta quarta-feira (7). “Deixo claro que a China e outros países têm direitos legítimos na Venezuela, que precisam ser protegidos.”

As declarações vêm após reportagens segundo as quais a Casa Branca estaria exigindo que a Venezuela reduza seus vínculos com China, Rússia, Irã e Cuba após a captura do líder Nicolás Maduro no fim de semana.

A iniciativa dos EUA, reportada pela ABC News e pelo The New York Times, representa um desafio à presença chinesa na América Latina, mesmo enquanto as duas maiores economias do mundo buscam estabilizar as relações. O movimento ocorre às vésperas de um novo encontro entre o presidente dos EUA, Donald Trump, e o líder chinês Xi Jinping, previsto para abril, após uma trégua comercial firmada no fim do ano passado.

A ABC News informou que a Venezuela teria sido orientada a expulsar os quatro países e romper laços econômicos, citando três fontes não identificadas com conhecimento do assunto. Em reportagem separada, o New York Times, citando autoridades americanas não especificadas, disse que Washington pressiona a líder interina Delcy Rodríguez a expulsar espiões e militares desses países, embora alguns diplomatas pudessem permanecer.

A Casa Branca não respondeu imediatamente aos pedidos de comentário sobre as reportagens.

Ainda não está claro até que ponto os EUA pretendem retirar China, Rússia e outros atores da economia venezuelana. Qualquer movimento para cortar laços representaria um realinhamento político completo da Venezuela, que nos últimos anos dependeu fortemente do quarteto para estabilidade econômica e de segurança, tanto sob o governo Maduro quanto sob o de seu antecessor, Hugo Chávez.

Embora autoridades americanas de alto escalão tenham afirmado que os EUA não buscam ocupar a Venezuela após a captura de Maduro, Trump deixou claro repetidas vezes que pretende desempenhar um papel central na condução do futuro do país — e que grande parte desse futuro seria financiada por receitas do petróleo.

Na noite de terça-feira (6), Trump disse que a Venezuela começaria enviando aos EUA até 50 milhões de barris de petróleo — avaliados em mais de US$ 2,8 bilhões aos preços atuais de referência do West Texas Intermediate (WTI) — afirmando que o volume seria vendido a preço de mercado. O governo planeja se reunir com empresas petrolíferas americanas na próxima semana para discutir investimentos no país sul-americano.

Laços Venezuela-China

A crescente assertividade dos EUA na América Latina pode forçar a China a recalibrar sua abordagem na região, embora seja improvável que chegue a um confronto direto com Washington. Pequim vem aprofundando laços comerciais e econômicos na América Latina há mais de uma década, em busca de ampliar sua influência global e assegurar recursos estratégicos.

A Venezuela, em particular, mantém relações estreitas com Pequim, que em 2023 elevou o relacionamento a uma “parceria estratégica abrangente para todas as condições”. A China é o maior comprador de petróleo bruto venezuelano e o principal credor do país, apoiando de forma consistente o governo Maduro e oferecendo respaldo contra sanções e isolamento impostos pelos EUA.

“A China terá de reagir; não pode correr o risco de parecer fraca”, afirmou Dylan Loh, professor associado da Universidade Tecnológica de Nanyang. Segundo ele, a tensão pode afetar futuras negociações comerciais, mesmo que seja improvável uma ruptura imediata da trégua.

“Os EUA verão isso como uma moeda de troca. Podem tentar fechar um acordo com a China para continuar vendendo petróleo e permitir que a Venezuela pague seus empréstimos”, disse.

Para alguns analistas, a manobra vai além de uma disputa por suprimento de energia. Josef Gregory Mahoney, professor de relações internacionais da Universidade Normal da China Oriental, em Xangai, descreveu a estratégia dos EUA como um “jogo aninhado”, voltado a estabelecer domínio regional e neutralizar a influência estrangeira no Hemisfério Ocidental.

“É possível imaginar que parte do objetivo seja obter controle não apenas do petróleo, mas também de riquezas minerais estratégicas”, disse Mahoney. Ele alertou que forçar a saída da China criaria um “mau precedente” para investimentos em toda a América Latina e poderia desencadear um ciclo de retaliações.

“Se chegar ao ponto de a China ser forçada a sair, poderemos ver algum tipo de reciprocidade — apreensão de ativos americanos ou ações judiciais para recuperar valor”, acrescentou.

© 2026 Bloomberg L.P.

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