Apesar da pressão do presidente Lula para consolidar um palanque forte no maior colégio eleitoral do país, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad (PT), e o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) resistem a encabeçar a disputa pelo governo de São Paulo nas eleições de outubro.
A postura reflete não apenas o desgaste de derrotas anteriores, mas o histórico da esquerda no estado, gerado tanto pelo encolhimento do PT quanto pela ascensão da direita, sobretudo no interior.
Hoje, Haddad é considerado o nome ideal para disputar com Tarcísio de Freitas, que busca a reeleição. Petistas lembram que os 44,73% de votos válidos que ele conseguiu em 2022 contra o atual governador o credenciam, mas Haddad resiste à empreitada — ele acumula três derrotas consecutivas: esta contra Tarcísio, a Presidência, em 2018, para Jair Bolsonaro, e a prefeitura da capital, em 2016, quando não foi reeleito.
Na semana passada, Haddad afirmou que, apesar do seu posicionamento, tem conversado com Lula sobre o tema.
— Eu tenho colocado várias questões, que ele está considerando. Eu também estou considerando várias outras questões que ele está colocando. São duas pessoas que se querem bem e que estão evoluindo na conversa — disse, durante um debate promovido pelo BTG Pactual.
Alckmin também não mostra interesse em disputar eleições, e seu partido já disse a Lula que a prioridade é mantê-lo na chapa como vice. O presidente, no entanto, não dá garantias porque tenta atrair o apoio formal do MDB em troca da vaga.
O desânimo de ambos ocorre num momento em que a esquerda tem registrado desempenho fraco em São Paulo nas disputas ao Palácio dos Bandeirantes e em pleitos municipais. Desde a redemocratização, o PT só foi para o segundo turno em eleições para governo estadual duas vezes: uma em 2002, com José Genoíno, e a outra em 2022.
A falta de força do PT em solo paulista tem incomodado Lula, que cobrou publicamente o partido na semana passada, durante evento de comemoração de 46 anos da sigla. O partido, que nasceu no ABC e cresceu na Região Metropolitana, tendo inclusive eleito prefeitos na capital por três vezes, foi se enfraquecendo após o impeachment de Dilma Rousseff (PT) e a operação Lava-Jato.
Em 2024, o PT amargou o seu pior resultado em disputas municipais, elegendo apenas quatro prefeitos em cidades pequenas, mesmo com Lula governando o país. O saldo foi pior até mesmo do que o de 2016 e 2020, quando o partido estava no auge de sua crise após a Lava-Jato e a prisão do presidente.
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Jairo Nicolau, professor do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) da FGV, afirma que o partido não pode menosprezar a importância de São Paulo na eleição presidencial, mas que o seu histórico traz desafios.
— São Paulo não é só a Região Metropolitana, não são só as cidades universitárias, tem um interior gigantesco onde o PT sempre teve mais dificuldades. Não surpreende que ninguém queira ir para o sacrifício, sobretudo contra um governador bem avaliado. Ainda mais no caso de Alckmin e Haddad, que são políticos experientes, com projeção nacional — opina.
Nicolau aponta também o fraco desempenho em 2024 como outro sinal de alerta, ainda que o número de prefeitos alinhados não seja garantia de derrota ou vitória:
— A eleição municipal sinaliza o enraizamento, o espraiamento do partido pelo território e é um bom sinal se o partido ganha um grande número de prefeituras. Uma rede municipal é muito importante para uma eleição para governador e presidente, mas não é decisiva. Tanto que Tarcísio venceu sem nada disso. O PT poderia ganhar uma eleição mesmo sem ter esse enraizamento no estado, com um candidato popular.
Para petistas, esse candidato é Haddad, justamente por ter “chegado muito perto” na eleição passada.
— Quem tem 45% dos votos, tem que aspirar ter 50%, não é um delírio, é uma coisa palpável. Até porque será uma eleição polarizada, nacionalizada, o Tarcísio vai ter que colar no Bolsonaro e trazer a rejeição do ex-presidente para ele — opina o deputado estadual Donato (PT).
Disposição para disputa
Nas últimas semanas, petistas passaram a perceber mais chances de Haddad concorrer do que Alckmin, mas o vice-presidente é visto como um ator essencial para garantir votos para o presidente e para o candidato a governador da esquerda no interior do estado, que historicamente se alinha mais à direita, ainda que seu nome não esteja nas urnas. Aliados de Lula dizem esperar que ele participe com afinco da campanha, com agendas sobretudo no interior. Como Alckmin já governou o estado por 12 anos, inclusive sendo eleito no primeiro turno em duas eleições, teria um eleitorado cativo ainda que tenha se aliado a Lula, avaliam petistas.
Em relação ao Legislativo, o PT se preocupa com a falta de puxadores de votos, e integrantes da sigla já admitem que as maiores votações na esquerda devem ficar para o PSOL, com Erika Hilton (PSOL-SP) e Sâmia Bomfim (PSOL-SP), por exemplo, que devem herdar ainda o espólio do ministro da Secretaria-Geral, Guilherme Boulos, que decidiu não concorrer novamente a deputado federal.
O Senado, tido como prioridade do PT, tem um cenário mais otimista: o partido trabalha com a opção de apoiar as hoje ministras Simone Tebet, atualmente no MDB, e Marina Silva. Alckmin também é uma opção estudada para essa candidatura.
Para o deputado Emídio de Souza (PT), um palanque com nomes fortes é indispensável para a vitória de Lula:
— O peso de São Paulo é muito grande. O estado tem 22% do eleitorado nacional, isso desequilibra uma eleição. No segundo turno de 2022, o Lula teve uma vitória apertada contra o Bolsonaro, e no estado ele teve 44% de votos. Se ele tivesse tido 40%, por exemplo, ele teria perdido a eleição. Ter 30% ou 40% aqui faz muita diferença — aponta Emídio.
Naquele ano, o petista venceu na capital, apesar de ter perdido na maior parte do estado. Mas a mudança entre 2018 e 2022 anima os petistas para este ano. Na primeira disputa do partido contra Bolsonaro, o candidato da direita ganhou de lavada no estado, com 631 cidades. No pleito seguinte, o ex-presidente venceu em 547 municípios.
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