Quais foram as mudanças no posicionamento da Venezuela após a captura de Maduro?

Há mais de um mês que a capital da Venezuela foi atingida por uma operação militar aérea que encerrou meses de expectativa por um conflito. Pouco tempo depois, Donald Trump utilizou a plataforma Truth Social para oficializar a captura da cúpula venezuelana: “Os Estados Unidos realizaram com sucesso um ataque em grande escala à Venezuela e ao seu líder, o presidente Nicolás Maduro, que foi capturado junto com sua esposa [Cilia Flores]”.

Após o anúncio de que os dois haviam sido removidos da Venezuela, o governo americano confirmou a transferência do casal para Nova York. Diante do vazio no comando, a então vice-presidente Delcy Rodríguez tomou posse como presidente interina dois dias depois do ataque.

Maduro e sua esposa estão atualmente encarcerados no Centro de Detenção Metropolitano do Brooklyn. No dia 17 de março, ambos deverão comparecer a um tribunal federal para prestar esclarecimentos sobre denúncias de narcoterrorismo e tráfico de entorpecentes.

Enquanto os réus aguardam julgamento, o Estado venezuelano passa por uma reestruturação coordenada por Washington, rompendo com a estabilidade do regime que Maduro liderava há doze anos. Confira as quatro principais mudanças no país até agora.

Anistia

Uma das primeiras medidas do novo governo foi a soltura de diversas pessoas da oposição, incluindo jornalistas, ativistas, líderes de sindicatos e críticos do regime que estavam presos há meses. Muitos desses casos eram classificados como prisões ilegais por entidades internacionais.

Jorge Rodríguez, irmão da presidente interina, que preside a Assembleia Nacional, justificou a iniciativa como uma ação voluntária para “consolidar a paz da República e a convivência pacífica”. Embora o governo tenha divulgado que mais de 600 presos foram soltos, os dados são divergentes. O Fórum Penal Venezuelano, por exemplo, validou apenas 344 libertações do total de detidos por motivações políticas.

Para dar agilidade a esse movimento, Delcy Rodríguez revelou, no dia 30 de janeiro, a criação de uma legislação de perdão jurídico amplo. Segundo a presidente em exercício, a intenção é “promover uma lei de anistia geral, que cobrirá todo o período de violência política de 1999 até o presente”, esperando “que a lei sirva para curar as feridas deixadas pelos confrontos políticos”.

Além do perdão legal, a chefe do Executivo anunciou o encerramento das atividades do Helicoide, prédio emblemático utilizado pela inteligência venezuelana como centro de detenção.

 Entidades como a Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) e a Missão da ONU para a Venezuela já haviam classificado o prédio como um “centro de tortura” voltado à repressão de opositores.

O cenário de solturas foi celebrado por Donald Trump em sua plataforma, a Truth Social: “Tenho o prazer de informar que a Venezuela está libertando seus presos políticos em ritmo acelerado”. O presidente dos Estados Unidos ainda acrescentou que “A previsão é que este ritmo aumente nas próximas semanas”.

Essas novas diretrizes de Delcy Rodríguez representam uma ruptura drástica com a postura mantida por Nicolás Maduro e pela cúpula chavista até a intervenção. Anteriormente, o rigor do governo havia levado mais de 2 mil indivíduos à prisão, conforme estatísticas do Ministério Público venezuelano.

Petroleiras

As ameaças feitas pelo ministro do Interior, Diosdado Cabello, em dezembro, de que “nem uma gota de petróleo pode sair daqui para os Estados Unidos se eles agredirem a Venezuela”, acabaram não se concretizando. Logo após a captura de Maduro, Donald Trump comunicou que Caracas concordou em exportar até 50 milhões de barris para os americanos sob valores de mercado.

O presidente dos Estados Unidos detalhou ainda que o faturamento dessas transações terá sua supervisão direta: “será controlado por mim […] para garantir que seja utilizado em benefício do povo da Venezuela e dos Estados Unidos”. 

Sem contestar a declaração, a estatal Petróleos de Venezuela (Pdvsa) admitiu em nota oficial que “está em negociações com os Estados Unidos para a venda de volumes de petróleo”.

Para impulsionar o setor energético venezuelano, Trump sugeriu que companhias dos EUA investissem pelo menos US$ 100 bilhões na região. Contudo, o receio quanto à estabilidade jurídica travou investimentos. 

Buscando atrair o capital estrangeiro, Jorge Rodríguez promoveu uma alteração profunda na Lei de Hidrocarbonetos, desfazendo parte da nacionalização iniciada por Hugo Chávez em 2007. Ele argumentou que “essas imensas reservas de petróleo [da Venezuela] precisam ser extraídas para transformá-las em escolas e hospitais […] Debaixo da terra, elas não servem para ninguém”.

A mudança gerou fortes críticas dentro do próprio chavismo. O ex-ministro das Comunicações Andrés Izarra afirmou que “no dia 29 de janeiro de 2026, a Venezuela deixou de ser dona do seu petróleo, não importa como se veja”.

Dólar

A instabilidade provocada pela intervenção militar dos EUA atingiu em cheio o câmbio venezuelano, e por consequência, sofreu desvalorização tanto nos índices governamentais quanto nas negociações informais.

Ao longo de janeiro, o Banco Central da Venezuela (BCV) registrou uma queda de quase 22% no valor do bolívar em relação à moeda americana. Nesse período, a cotação oficial saltou de 301,37 para 367,30 bolívares por US$ 1.

No mercado paralelo, termômetro para o dia a dia da população e do empresariado, a flutuação foi ainda mais agressiva. Logo após o ataque de 3 de janeiro, a divisa americana superou a marca de 800 bolívares, embora tenha recuado para a casa dos 400 bolívares nos dias recentes.

De acordo com a apuração realizada pela BBC News Mundo, um especialista em economia que optou pelo anonimato esclareceu as razões do movimento: “Houve muita incerteza e muitas pessoas acreditaram que a situação seria mais caótica do que ocorreu na realidade. Por isso, a oferta de divisas no mercado paralelo, que já era escassa há semanas, foi reduzida ainda mais”.

Como medida de contenção, o governo retomou as intervenções cambiais após um longo hiato, injetando US$ 300 milhões obtidos com a exportação de petróleo. A estratégia parece ter sido o fator determinante para aproximar novamente os valores das cotações oficial e paralela.

O analista ouvido pela BBC ponderou que intervenções desse porte não resolvem o problema na raíz. Para ele, o fator decisivo para o rumo da economia, do controle inflacionário e da estabilidade da moeda será a regularidade do fluxo financeiro, e não apenas comercializações isoladas.

Mesmo com a aproximação das cotações do dólar, o custo de vida para a população de Caracas não apresentou melhora. Alberto Fernández, que trabalha por conta própria na capital, disse à BBC que a alta persiste e os preços não acompanham a queda da moeda americana no mercado informal. Ele exemplificou a situação com o preço da cartela de ovos, que subiu de US$ 2,60 para US$ 3,50 em apenas uma semana, tornando o orçamento insuficiente.

Apesar da aparente calmaria no câmbio paralelo, a desvalorização contínua no mercado oficial agrava o cenário, já que a Venezuela depende do exterior para suprir aproximadamente 60% de suas necessidades de consumo. Esse desequilíbrio reflete os dados do Fundo Monetário Internacional (FMI) de outubro, que apontaram uma inflação de 548% no país ao final de 2025.

Negociação

As previsões de Nicolás Maduro feitas no encerramento de 2025, de que uma ofensiva americana paralisaria o país com uma greve geral revolucionária e insurrecional da classe trabalhadora, não se concretizaram. Da mesma forma, as expectativas de que o ataque causaria uma fragmentação imediata dentro do movimento chavista também falharam.

Sob o comando de Delcy Rodríguez, a gestão atual tomou o caminho do entendimento com Washington, buscando agilizar a retomada dos laços diplomáticos que estavam rompidos há quase sete anos.

Esse processo de reaproximação incluiu a vinda da diplomata Laura F. Dogu para reabrir a embaixada dos Estados Unidos em Caracas, logo após uma visita inédita de John Ratcliffe, diretor da CIA.

Embora a presidente em exercício justifique que o diálogo é a via necessária para lidar com os efeitos da operação militar e com a captura de Maduro e Cilia Flores, vozes internas do governo criticam a postura. Elías Jaua, ex-vice-presidente, apontou que, apesar da ausência de tropas terrestres visíveis, o país vive uma ocupação militar tecnológica, naval e aérea, funcionando apenas para atender às demandas energéticas da potência estrangeira.

Delcy Rodríguez, por sua vez, tenta afastar a imagem de submissão. Ela reforçou que a Venezuela tem autonomia para manter parcerias com nações como Rússia, China, Irã e Cuba, e exigiu que Washington pare de interferir na política doméstica para que as divergências locais sejam resolvidas internamente.

Contudo, o fato de ações como a reforma do setor de petróleo, a lei de anistia e a soltura de detidos terem sido antecipadas por autoridades americanas antes mesmo de constarem nos planos oficiais do governo venezuelano evidencia que essas transformações são, na verdade, imposições externas.

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