Mais que Trump: o século de tentativas dos EUA para controlar a Groenlândia

A retórica recente do presidente Donald Trump sobre a possibilidade de os Estados Unidos assumirem o controle da Groenlândia reacendeu temores na Europa, sobretudo após a captura do líder venezuelano Nicolás Maduro por forças americanas.

Embora o tom atual seja mais agressivo, a ideia de Washington ampliar sua presença na região, ou mesmo adquirir o território, atravessa mais de um século de história e se apoia em razões geopolíticas e estratégicas que antecedem em muito o atual governo.

Com 2,1 milhões de km² e localização central no Ártico, a Groenlândia ocupa um ponto sensível entre a América do Norte e a Europa. A ilha está sobre o chamado GIUK Gap, corredor marítimo que conecta o Ártico ao Atlântico Norte e é crucial para o monitoramento de movimentações navais, principalmente para países nórdicos e a Rússia.

Soma-se a isso o potencial econômico: reservas de petróleo, gás e minerais estratégicos, como terras raras, ampliaram o valor geopolítico do território num contexto de disputa global por recursos críticos.

O interesse americano surgiu ainda no século XIX. Após negociar a compra do Alasca da Rússia em 1867, o então secretário de Estado William H. Seward passou a defender a expansão dos EUA no Ártico.

Relatórios da época, citados pelo Departamento de Estado, indicavam que controlar a Groenlândia ampliaria a influência comercial e estratégica do país. A ideia nunca avançou formalmente, mas permaneceu em circulação nos círculos diplomáticos.

O histórico

No início do século XX, surgiram propostas ainda mais ousadas. Em 1910, o embaixador americano em Copenhague sugeriu trocar territórios sob controle dos EUA nas Filipinas pela Groenlândia e pelas então Índias Ocidentais Dinamarquesas. A iniciativa não prosperou, e a atenção de Washington se voltou para a Primeira Guerra Mundial.

Pouco depois, porém, os EUA comprariam da Dinamarca as ilhas que hoje formam as Ilhas Virgens Americanas, pagando cerca de US$ 25 milhões em ouro.

O capítulo mais concreto ocorreu no pós-Segunda Guerra. Com a Dinamarca ocupada pela Alemanha nazista, os EUA assumiram a defesa da Groenlândia e instalaram bases militares na ilha.

Em 1946, já sob a presidência de Harry Truman, Washington apresentou sua primeira oferta formal: US$ 100 milhões em ouro pela compra do território. Documentos revelados décadas depois mostram que o governo americano considerava a ilha indispensável para a segurança nacional em meio ao início da Guerra Fria.

A proposta foi recusada, mas abriu caminho para acordos que garantiram presença militar permanente, hoje concentrada na Base Espacial Pituffik, antiga Base Aérea de Thule.

A partir de 1979, a Groenlândia passou a ter maior autonomia em relação à Dinamarca, com governo próprio e poder para decidir seu futuro político, inclusive sobre uma eventual independência. Ainda assim, a cooperação militar com os EUA foi mantida, reforçando a importância estratégica do território para o Ocidente.

No século XXI, o tema voltou ao centro do debate com Trump. Em 2019, durante seu primeiro mandato, o presidente comparou a ideia de compra da Groenlândia a uma grande negociação imobiliária, provocando reação imediata de autoridades dinamarquesas e groenlandesas.

Após retornar à Casa Branca, Trump retomou o discurso e passou a mencionar abertamente que não descartaria uma ação militar para garantir o controle da ilha, declarações reiteradas recentemente por porta-vozes do governo americano.

Segundo a Casa Branca, a Groenlândia é vista como peça-chave para conter adversários no Ártico e assegurar rotas estratégicas em um cenário de rivalidade crescente com Rússia e China. A retórica, porém, elevou a tensão diplomática e gerou condenação de líderes europeus, que alertam para riscos à estabilidade regional e ao próprio funcionamento da Otan.

A diferença, agora, está no contexto. Um mundo mais fragmentado, com disputas por recursos estratégicos e uma retórica de poder que recoloca no centro do debate uma ilha que, há décadas, é vista como silenciosa, mas decisiva, no tabuleiro global.

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