Após a operação militar dos Estados Unidos na Venezuela no último final de semana, a política americana de intervenção saiu do campo da retórica e das ameaças e se transformou em algo concreto. Enquanto muitos analistas e estrategistas passaram a cogitar e debater o que viria a seguir, o próprio presidente Donald Trump e alguns graduados colaboradores citaram nominalmente a Groelândia como alvo, gerando perplexidade e temores entre lideranças europeias.
O interesse estratégico, militar e econômico dos EUA sobre a maior ilha do mundo não é novo, mas foi intensificado desde que Trump tomou posse para seu segundo mandato, no início de 2025.
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A Groenlândia é uma grande massa de terra e gelo, com área estimada de 2,166 milhões de quilômetros quadrados e apenas cerca de 56 mil habitantes, boa parte deles concentrados na capital Nuuk. Localizada em parte na América do Norte e outra no Polo Norte, é uma região autônoma, mas que faz parte da Dinamarca — que colonizou a região de 1776 até 1953.
Desde então, os groenlandeses avançaram em sua autonomia para questões internas, mas a Constituição, a cidadania, a Suprema Corte, a política externa, de defesa e segurança, a taxa de câmbio e a política monetária local são atribuições do governo dinamarquês.
Por sua localização, na região do Ártico, a ilha sempre foi alvo de cobiça por grandes potências. Para os EUA é cada vez mais importante garantir acesso a passagens pela região, ainda mais num contexto de crescente militarização do Ártico. Trump, de maneira exagerada, tem repetido ultimamente que a ilha está cercada por navios da Rússia e da China.
Interesses
A Groenlândia ocupa uma posição considerada chave ao longo de duas rotas de transporte potenciais através do Ártico: a Passagem do Noroeste, ao longo da costa norte da América do Norte, e a Rota Marítima Transpolar, pelo centro do Oceano Ártico. Especialistas consideram que, à medida que o gelo marinho do Ártico derrete, essas rotas podem reduzir nas décadas à frente os tempos de transporte, além de permitir contornar os tradicionais pontos de estrangulamento do comércio, como os canais de Suez e do Panamá.
A outra questão é econômica: há um grande potencial a ser destravado no local que é o da exploração mineral, especialmente em terras raras – essenciais para insumos da transição energética. Recentemente, a Groenlândia encerrou uma proibição de 25 anos à mineração de materiais radioativos em seu território, como urânio, mas proibiu toda nova exploração de petróleo e gás.
Quando Trump voltou ao poder, em 2025, passou a citar com frequência o interesse americano em administrar esse território. Em março, o presidente disse que os EUA “iriam tão longe quanto fosse preciso” para tomar o controle da Groenlândia. Na sequência, o vice-presidente J.D. Vance visitou a região e deu declarações defendendo a independência do território da Dinamarca.
“O povo da Groenlândia terá autodeterminação”, disse Vance na ocasião. “Esperamos que eles escolham se unir aos Estados Unidos, porque somos a única nação na Terra que respeitará sua soberania e sua segurança.”
Em dezembro passado, Trump nomeou o governador da Louisiana, o republicano Jeff Landry, como enviado especial para a Groenlândia, uma medida sem amparo legal que deixou as autoridades locais, a Dinamarca e aliados europeus em alerta.
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Mas afinal, quais as opções estariam em discussão para uma intervenção americana no território e o que os europeus podem fazer para impedir isso? O InfoMoney fez uma lista:
Compra
A opção de os EUA comprarem a Groenlândia, abertamente admitida pelo Secretário Marco Rubio, não é uma novidade. Historiadores lembram que houve conversas sobre isso desde 1967, logo após o término da Guerra Civil Americana. Falou-se sobre isso novamente na ocasião das duas Guerras Mundiais, tanto por conta dos valiosos depósitos de carvão do território, como para tentar reduzir a influência britânica – também fazia parte de um plano estratégico de pressionar o Canadá a se juntar aos Estados Unidos, tema que também retornou na segunda gestão Trump.
Mas essa proposta esbarra não só no profundo desinteresse da Dinamarca como também nos habitantes da ilha, que estão interessados em maior autonomia e não em trocar de administrador. O alto custo da empreitada, que nem foi calculado ainda, seria outro empecilho, uma vez que a maioria republicana no Congresso dos EUA é fortemente contrária a elevar gastos federais.
Pacto de Livre Associação
Outra possibilidade em discussão é assinar com a Groenlândia um Pacto de Livre Associação (COFA, na sigla em inglês). Esse tipo de arranjo, que já existe em regiões do Pacífico como Micronésia, Ilhas Marshall e Palau, permitiria que as forças armadas dos EUA operassem sem restrições no território, em troca de proteção, da oferta de vários serviços e de um comércio livre de impostos.
Esse acordo, no entanto, teria necessariamente de passar pela independência da Groenlândia em relação à Dinamarca. Estrategicamente, os EUA tem nos últimos anos fomentado grupos que buscam essa separação, mas essa é uma aposta de longo prazo.
Sobre os custos, é possível fazer uma comparação. Segundo dados do Congresso americano, os EUA forneceram subsídios de US$ 690 milhões para as Ilhas Marshall e US$ 1,54 bilhão para a Micronésia entre os anos fiscais de 1987 e 2003. Após ajustes, essa ajuda foi de US$ 722 milhões e US$ 276 milhões, respectivamente, entre 2004 e 2023 – isso sem contar alguns gastos militares. Entre os anos fiscais de 1995 e 2009, a assistência do Pacto a Palau, incluindo auxílio de subsídios, construção de estradas e um fundo fiduciário, totalizou US$ 574 milhões.
Ação militar
A opção de os EUA ocuparem militarmente a maior ilha do mundo é uma alternativa que não está fora de cogitação – se forem levadas a sério as ameaças dos últimos meses – mas provavelmente geraria protestos entre os aliados europeus, em especial os abrigados sob o tratado da Otan. Mas, militarmente, não seria algo de difícil execução. A Groenlândia já hospeda a Base Espacial Pituffik, antiga Base Aérea de Thule, uma instalação militar dos EUA essencial para o alerta precoce de mísseis e defesa, bem como de vigilância espacial.
Durante a Guerra Fria, havia quase 10 mil soldados americanos no território, com base num acordo de defesa de 1951, que ainda obriga os EUA e a Dinamarca a defender a Groenlândia em caso de ataque.
Um problema dessa opção seria a reação dos europeus. O think tank Bruegel lembra que França, Alemanha e os países nórdicos compartilham uma avaliação comum da importância da Groenlândia. O presidente francês Emmanuel Macron visitou a capital Nuuk em junho de 2025 e reafirmou seu “apoio inabalável” à integridade territorial da Groenlândia. Mas a Otan não pode responder militarmente sem aprovação unânime, o que inclui a dos EUA, e embora teoricamente países europeus possam tentar defender a Groenlândia, as forças armadas dos EUA são muito maiores e mais bem equipadas, além de haver tropas estacionadas na Groenlândia.
Opções europeias
E como os europeus podem agir para manter a ilha sob sua esfera de influência? Segundo o Bruegel, a primeira opção é esperar para ver, na esperança de que as instituições dos EUA e a Constituição americana limitem as aventuras de política externa de Donald Trump. A análise é que essa estratégia é conveniente, mas arriscada, uma vez que um vácuo estratégico é um convite à ação de terceiros – sempre lembrando que já há forças americanas no território.
Abre-se, então, espaço para uma segunda opção: cooperação discreta, porém substancial da União Europeia com a Dinamarca e o governo da Groenlândia. Isso poderia incluir o envio de forças militares europeias adicionais para Nuuk para apoiar estruturas existentes, complementadas por defesa aérea e naval. Além de dar um sinal político, já poderia servir para garantir a segurança da Groenlândia contra várias ameaças em um momento em que o Ártico está se tornando cada vez mais contestado. Sob esse acordo, até uma expansão da base americana seria admitida.
“A segurança só pode ser alcançada por meio de uma cooperação europeia estruturada. Os instrumentos para isso existem há muito tempo. Com a capacidade de implantação rápida, a UE tem um instrumento militar adequado à sua disposição. Usá-la não seria um ato de provocação, mas um sinal de maturidade estratégica e unidade europeia”, considera Guntram B. Wolff, pesquisador sênior do Bruegel.
(Fontes: Bruegel, Time Magazine, Congresso Americano, Reuters, The Guardian e The New York Times)
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