Em meio ao recesso parlamentar, a Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) publicou, em edição extraordinária do Diário Oficial na noite desta terça-feira, a exoneração de 206 funcionários. Comissionados indicados por políticos influentes do estado, como Sérgio Cabral e Paulo Melo, ex-presidentes da Casa, foram demitidos. Entre eles, Marco Antônio Neves Cabral e Suzana Neves Cabral, filho e ex-esposa de Sérgio Cabral. As exonerações foram assinadas pelo primeiro vice-presidente e atual presidente em exercício do Legislativo fluminense, Guilherme Delaroli (PL).
Suzana estava na Alerj desde agosto de 2016 e começou como chefe de gabinete parlamentar. Agora, tinha um cargo em comissão na Diretoria-Geral e recebia R$ 10.910,88 líquidos. Marco Antônio foi nomeado como Assistente 1, em março de 2023. Ele estava lotado na Assessoria da Presidência e ganhava R$ 9.741,91 já com descontos.
Em nota oficial, a presidência da Alerj afirmou que não comentará as exonerações. Disse ainda que os atos “seguem o curso natural da transição na presidência, e têm como objetivo aprimorar a gestão e, consequentemente, os serviços prestados à população do Estado do Rio de Janeiro”.
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Recado político
Nos corredores da Alerj, a edição extra do DO foi lida menos como um ato administrativo e mais como um recado político. A lista extensa de exonerações revelou um movimento calculado de Delaroli para desmontar estruturas antigas que atravessaram gestões e sobreviveram a sucessivos acordos internos. A avaliação entre servidores é de que a canetada não mirou apenas cargos, mas redes de influência.
Do total de exonerados, pelo menos 47 eram indicações de Paulo Melo (que presidiu a Alerj de 2011 a 2015) e 17 seriam de Sérgio Cabral (que comandou o Legislativo entre 1995 e 2003). De acordo com o RJ2, da TV Globo, a presidência da Casa suspeita que haja funcionários fantasmas entre os nomeados.
Em nota ao telejornal, Paulo Melo afirmou que a demissão é um direito legítimo de quem está no poder. Ele disse ainda que dois dos afastados — o segurança Marcelo Neves e o treinador de artes marciais Pedro Lukas — trabalhavam para a deputada Franciane Motta (Podemos), esposa do ex-parlamentar, e destacou que os dois prestaram serviços relevantes.
Internamente na Alerj, Delaroli tem repetido a aliados que herdou uma estrutura inchada e opaca, com setores que funcionavam quase de forma autônoma e pouca transparência sobre quem, de fato, trabalhava. Por isso, antes da publicação das exonerações, ele determinou uma espécie de ronda informal pelos departamentos. A ordem foi identificar quem não aparecia e quem acumulava funções apenas no papel.
Lista de mil nomes
As demissões não devem parar em 206. O número dos que serão demitidos que circula nos bastidores é alto. Fala-se em uma lista com cerca de mil nomes sob avaliação. Ainda segundo interlocutores, o presidente afastado Rodrigo Bacellar (União) não ficou satisfeito com a varredura e interferências de Delalori. Bacellar, de acordo com esses assessores, costuma receber conselhos políticos de Sérgio Cabral.
A percepção entre funcionários é de que essa foi apenas a fase mais visível do processo — a que precisava ser tornada pública para dar lastro político às próximas decisões da presidência interina da Casa.
Nos gabinetes, o movimento também é interpretado como uma tentativa de Delaroli de ganhar controle efetivo da máquina administrativa em um momento de incerteza política. Com a presidência em disputa e alianças ainda em rearranjo, dominar a estrutura passou a ser visto como condição para qualquer projeto de poder futuro dentro da Assembleia.
A promessa de Delaroli, feita a aliados, é de que a próxima fase será técnica, com análise de currículos e recomposição de áreas estratégicas. Há quem considere a varredura um ajuste de contas silencioso — e um aviso de que antigos padrinhos não têm o mesmo peso de antes.
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