Como as maiores empresas de tecnologia estão transferindo os riscos da IA

A Microsoft anunciou uma série de acordos que somam dezenas de bilhões de dólares para alugar capacidade computacional para suas ambições em inteligência artificial. A Meta garantiu quase US$ 30 bilhões em financiamento para construir um enorme data center na Louisiana (EUA) sem assumir a dívida diretamente. O Google também se comprometeu a alugar poder de computação de uma pequena empresa e depois revender parte disso à OpenAI.

Esses acordos tinham algo em comum: permitiram que empresas que registram lucros trimestrais gigantescos reduzissem sua exposição financeira à frenética expansão global de data centers.

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Eles também sinalizaram novas formas de as maiores empresas de tecnologia manobrarem para empurrar parte do risco do boom de IA para os ombros de iniciantes ansiosos por uma fatia do mercado.

As estratégias permitem que companhias como Meta e Microsoft adicionem rapidamente capacidade computacional e depois esperem para ver como a demanda por IA vai se configurar antes de se comprometerem com projetos que podem durar décadas.

Trilhões de dólares estão em jogo enquanto as empresas de tecnologia tentam prever quanta capacidade computacional a IA vai exigir anos à frente.

Se as grandes empresas decidirem que, no fim das contas, não precisam de toda essa computação depois que os acordos expirarem, as empresas menores e seus financiadores ficarão com as consequências.

“Risco é como um tubo de pasta de dente”, disse Shivaram Rajgopal, professor de contabilidade da Columbia Business School. “Você aperta aqui, ele vai sair em algum outro lugar. Ele sempre está no sistema, a questão é onde.”

Esses acordos também acrescentam um nível de mistério ao financiamento de data centers, porque muitas das empresas que operam os centros para os gigantes da tecnologia estão longe de ser nomes conhecidos do Vale do Silício.

Algumas são de capital fechado, fazem negócios com grandes startups e tomam empréstimos de credores privados — tudo isso oferece menos transparência sobre sua solidez.

O projeto de data center da Meta na Louisiana mistura muitos desses elementos criativos de financiamento em um plano de vários bilhões de dólares que está tomando forma entre áreas rurais no nordeste do estado.

A Meta criou um veículo de propósito específico chamado Beignet Investor LLC e trabalhou com a Blue Owl Capital, uma gestora de crédito privado, para tomar dinheiro emprestado para o projeto.

A Meta ficou responsável pela construção do data center, mas a Blue Owl assumiu 80% do financiamento.

Como parte do arranjo, a Meta concordou em “alugar” o data center da Beignet por meio de uma série de contratos de quatro anos. Isso permite que o gigante da tecnologia classifique o financiamento como custo operacional, e não como dívida, de acordo com documentos financeiros.

Como parte do acordo, a Meta está pagando um prêmio à Blue Owl para não precisar tomar o dinheiro emprestado diretamente, disse Solomon Feig, credor de crédito privado da Pinnacle Private Credit. “Em vez disso, a Meta está alugando risco”, acrescentou.

A Blue Owl financiou principalmente o projeto, chamado Hyperion, por meio de uma emissão de títulos da Pimco, uma gestora de ativos. A Pimco, por sua vez, vendeu os chamados “títulos Beignet”, que vencem em 2049, a clientes como seguradoras, fundos de pensão, fundações e assessores financeiros. A BlackRock também comprou parte dos títulos.

“A parte-chave da estratégia da Meta, na minha visão, é que eles vão construir o máximo possível disso com o que o setor chama de OPM: dinheiro de outras pessoas”, disse Andrew Rocco, analista de ações da Zacks Investment Research.

Se o boom da IA desacelerar, a Meta pode sair do acordo já em 2033. Quanto ela poderá ter de pagar depende das circunstâncias.

A Blue Owl poderia encontrar um novo cliente ou vender o projeto, embora o valor do data center possa se depreciar se a demanda por IA decepcionar.

A Meta prometeu aportar dinheiro suficiente para, na prática, quitar a dívida subjacente sem colocar formalmente essa dívida em seu balanço, segundo a S&P Global, a agência de classificação de risco.

Outras empresas de tecnologia manifestaram interesse em estruturas financeiras semelhantes. Mas, como este foi um acordo inédito, a Meta ofereceu mais proteções do que futuros negócios podem exigir, segundo duas pessoas envolvidas no acordo que falaram sob condição de anonimato.

Rajgopal alertou que o arranjo lembra outros booms de investimento que recorreram a crédito privado e veículos de propósito específico, formas menos transparentes de captação de recursos do que o setor bancário tradicional.

“Eu achei que tivéssemos resolvido o problema fora do balanço”, disse ele, referindo-se aos métodos contábeis usados pelos bancos antes da bolha das empresas pontocom nos anos 2000. “Isso é como viver o Dia da Marmota de novo.”

A Meta se recusou a comentar.

As grandes empresas de tecnologia também estão fechando acordos gigantescos com uma nova geração de provedores de data centers conhecidos como neoclouds. Normalmente com contratos de três a cinco anos, esses acordos lhes dão mais capacidade computacional rapidamente, sem prendê-las a compromissos de décadas.

Ao concordar com contratos mais curtos, as grandes empresas conseguem obter poder de computação que aparece em seus relatórios financeiros como despesa operacional do dia a dia, e não como investimento de capital de longo prazo, o que pode assustar investidores.

Especialistas do setor afirmam que os custos da expansão da IA se tornaram tão elevados que já não é possível mitigar a maior parte do risco. Assim, os gigantes da tecnologia estão espalhando esse risco.

“Isso é muito astuto da parte deles”, disse Alex Platt, analista do banco de investimento D.A. Davidson. “Há apenas um punhado de empresas que sequer consegue fazer isso.”

c.2025 The New York Times Company

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