Empresas e o poder público: como construir pontes em um país polarizado

Congresso Nacional, em Brasília. (Foto: Antônio Cruz/ Agência Brasil)

Com a polarização política em alta e a proliferação de leis e regulamentações, as empresas enfrentam um dilema: como manter um diálogo produtivo com os formuladores de políticas públicas, defendendo seus interesses de forma ética, estratégica e transparente? Esse foi o foco do painel “Relações governamentais na era da hesitação: o desafio das marcas e dos comunicadores no mundo polarizado”, realizado nesta quinta-feira (26) durante a 9ª edição do Aberje Trends, em São Paulo.

Para Felipe Oppelt, diretor de Public Affairs na consultoria Prospectiva, o cenário atual exige um novo posicionamento das empresas. “Diante de tanta complexidade, com a circulação de narrativas extremas e fake news, a profissionalização e democratização do processo decisório é fundamental”, afirmou.

Segundo ele, a construção de políticas públicas mais eficazes depende da participação ativa de diversos setores — inclusive o empresarial — com base em evidências e dados sólidos.

A diretora de Comunicação e Assuntos Corporativos da Unilever Brasil, Juliana Arantes Durazzo Marra, compartilhou um exemplo de atuação bem-sucedida nesse campo. A marca Dove, voltada ao público feminino, liderou um movimento de articulação junto ao Congresso Nacional para discutir políticas públicas voltadas à saúde mental de meninas. O trabalho resultou na formulação do Projeto de Lei 329/2025, atualmente em tramitação. “A legitimidade é essencial. Isso só foi possível com diálogo consistente e contínuo com diferentes atores da sociedade”, explicou.

A mediação do painel ficou por conta de Sarah Bonadio, diretora global de Assuntos Corporativos do Grupo Alpargatas, que levantou uma provocação importante: e quando o diálogo institucional se torna inviável?

Para João Vitor Vicente, coordenador de Relações Institucionais da Braskem, o caminho é insistir na transparência e trazer ciência e dados para a mesa de negociação. A maior produtora de resinas termoplásticas das Américas, a Braskem está no centro de uma das discussões globais mais complexas: o combate aos resíduos plásticos. “O plástico está presente em quase tudo nas nossas vidas, mas também é um dos temas mais controversos. Por isso, atuamos ativamente nas negociações para a criação do Acordo Global do Plástico, que busca promover a economia circular e mitigar impactos ambientais”, afirmou.

A conclusão foi unânime: o perfil do profissional que atua em relações governamentais está mudando rapidamente. Segundo Oppelt, a figura do tradicional “homem do cafezinho em Brasília” ficou no passado. “Hoje, o profissional precisa operar com dados, construir confiança, atuar com transparência e ajudar a moldar políticas públicas que atendam aos interesses sociais e econômicos.”

Mais do que defender interesses corporativos, o novo papel das empresas é construir pontes em meio à polarização, com consistência técnica, legitimidade social e responsabilidade institucional. Em tempos de ruído e desinformação, comunicar com clareza e negociar com fundamento se tornaram atributos indispensáveis para quem deseja influenciar políticas públicas e preservar reputações no longo prazo, afirmaram os participantes do evento.

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