Mesmo com o tom duro adotado pelo Comitê de Política Monetária (Copom) na última reunião, ações ligadas ao consumo interno vêm acumulando fortes ganhos nos últimos dias. O avanço ocorre apesar da sinalização de que os juros devem permanecer elevados por mais tempo. Para analistas e gestores, o entendimento predominante é que o ciclo de aperto monetário chegou ao fim, e, mesmo sem cortes imediatos na Selic, isso já abre espaço para uma reavaliação dos preços, especialmente entre as chamadas small caps, empresas menores que foram duramente afetadas pelos juros altos.
A repetição da mensagem foi a principal tática do Copom para deixar claro que os juros não vão ceder tão cedo. A ata divulgada nesta terça-feira (24) reforçou, em cinco trechos diferentes, que a política contracionista deve ser mantida por um “período bastante prolongado”. Com isso, a maioria dos economistas já projeta uma janela para início dos cortes apenas em 2026. Ainda assim, o simples fato de o Banco Central ter encerrado a escalada, e não indicar novas altas, já parece suficiente para reativar o interesse em ações sensíveis à atividade doméstica.
Papéis como CVC (CVCB3), Magazine Luiza (MGLU3), Vamos (VAMO3), Azzas 2154 (AZZA3) e Méliuz (CASH3) avançaram entre 10% e 20% em questão de dias. Neste ano, o índice SMLL (Small Caps), que reúne empresas com menor valor de mercado negociadas na Bolsa, já acumula alta em torno de 22%, superando com folga o Ibovespa, que sobe menos de 10% no mesmo intervalo. Algumas ações, como Cogna (COGN3), Ânima (ANIM3) e Ser Educacional (SEER3), mais que dobraram de valor no ano.
Para se ter ideia, nesta terça-feira (24), por exemplo, AZZA3 encerrou o pregão com alta de 4,50%, VAMO3 disparou 7,23% e CVCB3 subiu 4,80%. Para o professor da FIA Business School, Marcos Piellusch, o que está por trás desse movimento, além do alívio com a ausência de novas altas na taxa Selic, é, principalmente, a expectativa de cortes nos juros no médio e longo prazo. Segundo ele, a curva de juros futuros já embute redução da taxa básica a partir de 2026.
Mesmo pequenas quedas, como 0,25 ponto percentual, afetam de forma relevante o valor presente dos fluxos de caixa projetados, sobretudo em setores alavancados e com maior sensibilidade ao custo de capital. “O mercado entendeu a atitude do Copom como pausa no ciclo de alta, o que já reduz o risco macro e libera o valuation de empresas sensíveis a juros. A precificação de cortes a partir de 2026 eleva o valor presente de fluxos futuros, beneficiando ações com forte exposição ao consumo doméstico, especialmente small caps, com maior alavancagem operacional”, explica.
O impacto da taxa longa na precificação dos ativos também é enfatizado por Marco Noernberg, head de renda variável da Manchester Investimentos. Segundo ele, o mercado não está concentrado apenas no patamar atual da Selic, mas, sim, nas curvas futuras. “A percepção é de que o ciclo de alta acabou. A curva ficou mais achatada, com as taxas longas nas mínimas recentes. Isso altera completamente o valor de empresas cíclicas, que dependem de crescimento interno e têm maior alavancagem operacional”, avalia.
Outro vetor importante que ajuda a sustentar esse movimento é a entrada de capital estrangeiro. Segundo Piellusch, o Ibovespa já atraiu cerca de R$ 20 bilhões em recursos externos até meados de junho. Embora uma parte vá para empresas maiores e com maior liquidez, observa ele, outra parte está claramente migrando para ações domésticas com valuation descontado.
Noernberg confirma que há uma retomada no interesse internacional. “O capital estrangeiro voltou a entrar, e o mercado de capitais começa a ganhar tração de novo. A atratividade de ações brasileiras cresceu com a melhora na percepção sobre o fim do ciclo de aperto monetário e com a valorização do real”, afirma.
Por fim, explicam os especialistas, há ainda o fator geopolítico. O cessar-fogo no Oriente Médio, se confirmado, tende a aliviar os preços do petróleo e contribuir para a estabilidade da inflação global. Isso, conforme eles, reforçaria as apostas de que os juros podem cair tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, reduzindo ainda mais as taxas de desconto aplicadas às ações domésticas.
Entre os setores beneficiados estão varejo, educação, turismo e leasing. Piellusch destaca ainda a recuperação no segmento de cashback e fidelização, que explica boa parte da alta acumulada por Méliuz, que já sobe quase 200% neste ano. “Empresas que haviam sido fortemente penalizadas com os juros altos estão agora recuperando parte de seu valor de mercado”, aponta.
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