O mundo entrou em um novo ciclo de deterioração democrática, com implicações que vão além do campo político e começam a preocupar mercados, empresas e formuladores de política econômica.
É o que aponta o relatório mundial de 2026 da Human Rights Watch (HRW), divulgado nesta quarta-feira (4), segundo o qual 72% da população global vive hoje sob regimes autoritários ou com baixos níveis de liberdades civis. O percentual recoloca o planeta em um patamar semelhante ao observado em meados da década de 1980.
A avaliação faz parte de uma análise mais ampla que cobre a situação dos direitos humanos em mais de cem países e identifica um movimento consistente de autocratização, com efeitos diretos sobre a previsibilidade institucional.
Para a HRW, esse ambiente aumenta a incerteza jurídica, enfraquece regras multilaterais e amplia riscos para o fluxo de investimentos de longo prazo, especialmente em economias dependentes de estabilidade política e cooperação internacional.
O relatório cita estudos recentes que mostram que democracias consolidadas perderam qualidade ao longo das últimas duas décadas. Um dos trabalhos mencionados é o levantamento “25 Anos de Autocratização – A Democracia Triunfa?”, produzido pela Universidade de Gotemburgo em 2025, que analisa quase 200 países desde 1974.
O estudo classifica os regimes em diferentes categorias, que vão de autocracias fechadas, sem eleições competitivas, a democracias liberais, onde há freios institucionais ao poder Executivo e proteção ampla das liberdades civis.
Nesse recorte, o Brasil aparece enquadrado como uma democracia eleitoral, enquanto Estados Unidos, França e Espanha são classificados como democracias liberais. Rússia figura como autocracia eleitoral e a China é definida como autocracia fechada.
A HRW observa, porém, que mesmo países tradicionalmente associados à defesa da democracia passaram a registrar retrocessos institucionais e disputas mais frequentes entre Poderes.
O documento atribui parte relevante desse cenário ao segundo mandato de Donald Trump à frente dos Estados Unidos. Segundo a ONG, o primeiro ano do novo governo americano contribuiu para um “avanço autoritário” global ao enfraquecer alianças democráticas e sinalizar tolerância a práticas iliberais.
A entidade afirma que a postura de Washington reduziu o custo político para líderes autoritários desafiarem normas internacionais e pressionarem instituições internas.
Além dos Estados Unidos, a HRW destaca a atuação contínua de China e Rússia como vetores de restrição a direitos humanos e de contestação à ordem internacional baseada em regras. Na avaliação da ONG, a combinação dessas forças amplia a fragmentação do sistema global e dificulta respostas coordenadas a crises políticas, econômicas e humanitárias.
EUA
O relatório dedica um capítulo específico às ações do governo Trump que, segundo a entidade, colocam em risco o sistema internacional de proteção aos direitos humanos.
Entre os pontos citados estão o ataque à independência judicial nos próprios Estados Unidos, o enfraquecimento da confiança no processo eleitoral, o uso de estruturas estatais para intimidar opositores políticos e a saída do país do Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas.
Também são mencionadas políticas migratórias mais duras, o desmonte de programas sociais e medidas que retiram proteções legais de minorias.
Para a HRW, essas iniciativas têm efeitos que extrapolam o debate normativo e afetam diretamente o ambiente econômico global, ao aumentar a volatilidade política, reduzir a previsibilidade regulatória e fragilizar mecanismos multilaterais que sustentam comércio, investimentos e cooperação financeira.
“A política externa de Trump abalou os alicerces da ordem internacional regida por leis que busca promover a democracia e os direitos humanos”, afirma a organização no documento.
Diante desse quadro, a entidade defende uma reação coordenada por parte de governos que ainda valorizam instituições democráticas, em articulação com sociedade civil e organismos internacionais.
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